O romancista a que já não chega ser popular

Os textos "O fascismo tem origem no marxismo", de José Rodrigues dos Santos (J.R.S.), e "Fascismo é quando um homem quiser", de António Araújo (A.A.), tiveram um duelo no jornal Público. O resultado vê-se logo nos títulos. Se ninguém está à espera de filosofia política da parte do jornalista e escritor, quem conhece o melhor blogue português, o Malomil, sabe que o seu autor - historiador e consultor político de presidentes - é capaz de ser mau com atrevidos, o que é muito bom. A.A. deu uma coça a J.R.S. Sobre o duelo, está dito. Mas há uma ideia no texto de J.R.S. que me parece bizarra. Escreveu ele: "(...) façam o favor de desmentir as provas que apresento nos meus romances." Ora, os romances podem inventar o que quiserem. Ninguém falou da incursão de J.R.S. pela filosofia política enquanto ela ficou dentro dos romances. Só quando, em sucessivas entrevistas e no tal texto, ele tentou defender a sua tese é que J.R.S. se expôs à demonstração, por alguém mais sábio, que não tem unhas para aquilo. Já os romances não podem ser sujeitos a desmentido. Tolstoi inventou para Pierre Bezukhov um mundo de mais de mil páginas em Guerra e Paz. Mas, apesar de ser uma mentira, e nunca ter existido, ninguém obrigou Tolstoi a mostrar a certidão de nascimento de Bezukhov. Com os romances de J.R.S., o desmentido que falta é do próprio autor sobre se os seus títulos, As Flores de Lótus e O Pavilhão Púrpura, se inspiram ou não em nomes de condomínios fechados de luxo.

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Henrique Burnay

A ameaça dos campeões europeus

No dia 6 de fevereiro, Margrethe Vestager, numa só decisão, fez várias coisas importantes para o futuro da Europa, mas (quase) só os jornais económicos repararam. A comissária europeia para a Concorrência, ao impedir a compra da Alstom pela Siemens, mostrou que, onde a Comissão manda, manda mais do que os Estados membros, mesmo os grandes; e, por isso mesmo, fez a Alemanha e a França dizerem que querem rever as regras do jogo; relançou o debate sobre se a Europa precisa, ou não (e em que condições), de campeões para competir na economia global; e arrasou com as suas possibilidades (se é que existiam) de vir a suceder a Jean-Claude Juncker.

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Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

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Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.