No Facebook, indignação, mas cautelas ao vivo!

Depois da denúncia nas redes sociais, tem sido um dos assuntos do dia em França, como mostram as edições online dos jornais franceses (e o DN também fez eco): a estudante Marie Laguerre, de 22 anos, vinha pelo passeio e cruzou-se com um homem. Este disse-lhe qualquer coisa, ela respondeu, ele atirou-lhe com pequeno cinzeiro de esplanada, ela respondeu, ele foi atrás dela e deu-lhe uma bofetada que a fez levantar os pés do chão e esvoaçar os longos cabelos. Sabemos (vemos, sem palavras) tudo isto pelo vídeo que foi publicado pela agredida no Facebook. As imagens são da câmara de segurança que vigiava a esplanada do bar, em frente à qual a agressão foi feita.

Aconteceu a 24 de julho, ainda havia uma bandeira de França à porta do bar, pela vitória no Mundial de futebol. Foi no Boulevard de la Villette, no bairro XIX, do norte de Paris, onde é frequente as mulheres serem inquietadas por bocas machistas, e mais. Este caso tornou-se famoso quando Marie publicou um post no Facebook com as imagens. A repercussão pode ser medida pelas afirmações da secretária de Estado da Igualdade, Marlène Schiappa, que prometeu medidas mais duras contra as agressões verbais e físicas. Com especial atenção para bairros onde é necessário, disse a governante, fazer-se a "reconquista republicana" (leia-se, lugares onde o viver democrático, sobretudo os direitos das mulheres, não é respeitado).

A troca de palavras conhece-se pela versão da agredida; a agressão física é testemunhada pelas imagens. O abuso causou uma enorme comoção social, que se conta nas redes sociais, como se sabe, pelo número de partilhas, centenas de milhares neste caso. Mas eu quero trazer para aqui uma comoção menos partilhada. Possível de se ver - mas só vendo o vídeo, não basta olhar de soslaio e mais rapidamente clicando.

A câmara fixa mostra-nos o terraço durante 1,17 minutos. Na primeira dúzia de segundos, os dois protagonistas, o agressor e a agressora, nem ainda apareceram, vão cruzar-se logo de seguida no passeio. Aproveitemos parar a imagem para contar quem vai testemunhar a agressão: os clientes na esplanada. São 15 sentados nas mesas da esplanada e um outro cliente que vai sair do bar. Todos jovens, da mesma compleição do agressor, cinco mulheres e onze homens. Onze homens que parecem terem esquecido a bandeira à porta e o que onze homens podem fazer.

Avancemos para a sonora e brutal bofetada. Todos olham. Só um homem se levanta com vontade de fazer frente ao agressor, corre para ele com uma cadeira. Mais três se aproximam mas com gestos apaziguadores. O da cadeira hesita perante a falta de... de... como dizer?, falta de comoção viral. E todos deixam o agressor ir embora.

Olhem para Marie Laguerre, ficou de pé, tesa, a cabeça devia latejar da bofetada. Ela reparou que ninguém se acercou dela. Duas jovens, a meio metro, continuam sentadas, falam entre si, fugindo da troca de olhares com a agredida. Num repente, Marie encolhe os olhos e vai-se embora, desta vez os cabelos esvoaçando por vontade própria. Deve ter concluído que as comoções modernas são na ponta do clique. Não entre os homens e as mulheres de carne e osso.

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