Não, não é Centeno que tem sorriso parvo (2)

Ontem, na morte de Johnny Hallyday, o presidente francês, homem delicado mas decidido, foi o primeiro a homenagear o cantor: "Nunca esqueceremos ni le nom, ni la gueule, ni la voix..." Nem o nome, nem as trombas, nem a voz... Trombas, pois. Para falar daquela cara poderosa e marcada que foi mudando mas guardando a matriz teatral - ao longo de mais de cinquenta anos sempre querida dos franceses - o presidente Macron escolheu um termo que outro cantador, Moustaki, celebrara num dos mais conhecidos versos da canção francesa: "Avec ma gueule de métèque"... Trombas, pois, em linguagem de presidente para um morto, não cedendo aos respeitosos cara ou rosto (que em francês se diz visage) que diriam tão pouco de Johnny Hallyday. Felizes os povos que amam as suas palavras e sabem dizê-las. A nós também não nos faltam as palavras. E à nossa língua também não falta gente culta - de Aquilino à empregada de tasca que um dia me disse "estropício" ao correr da pena - capaz de dizer das fuças de Hallyday isso e mais: corneta, ventas... O nosso problema é terem-se aberto as sacristias, onde antes se encafuavam os doutores rançosos, e a internet nos ter revelado quanto o mal está espalhado. Falam mal e à padreca e, o que é pior, julgam que as caixas de comentários foram inventadas para eles porem o dedinho no ar e debitarem o que não perceberam. Já que gostam de argumentos de autoridade, ponham os ouvidos em Emmanuel Macron que, apesar de cara de betinho, tem palavras de homem.

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Os europeus ao espelho

O novo equilíbrio no Congresso despertou em Trump reações acossadas, com a imprensa e a investigação ao conluio com o Kremlin como alvos prioritários. Na Europa, houve quem validasse a mesma prática. Do lado democrata, o oxigénio eleitoral obriga agora o partido a encontrar soluções à altura do desafio em 2020, evitando a demagogia da sua ala esquerda. Mais uma vez, na Europa, há quem esteja a seguir a receita com atenção.

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O fantasma na linha de produção

Tal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

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Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)