Não, não é Centeno que tem sorriso parvo (2)

Ontem, na morte de Johnny Hallyday, o presidente francês, homem delicado mas decidido, foi o primeiro a homenagear o cantor: "Nunca esqueceremos ni le nom, ni la gueule, ni la voix..." Nem o nome, nem as trombas, nem a voz... Trombas, pois. Para falar daquela cara poderosa e marcada que foi mudando mas guardando a matriz teatral - ao longo de mais de cinquenta anos sempre querida dos franceses - o presidente Macron escolheu um termo que outro cantador, Moustaki, celebrara num dos mais conhecidos versos da canção francesa: "Avec ma gueule de métèque"... Trombas, pois, em linguagem de presidente para um morto, não cedendo aos respeitosos cara ou rosto (que em francês se diz visage) que diriam tão pouco de Johnny Hallyday. Felizes os povos que amam as suas palavras e sabem dizê-las. A nós também não nos faltam as palavras. E à nossa língua também não falta gente culta - de Aquilino à empregada de tasca que um dia me disse "estropício" ao correr da pena - capaz de dizer das fuças de Hallyday isso e mais: corneta, ventas... O nosso problema é terem-se aberto as sacristias, onde antes se encafuavam os doutores rançosos, e a internet nos ter revelado quanto o mal está espalhado. Falam mal e à padreca e, o que é pior, julgam que as caixas de comentários foram inventadas para eles porem o dedinho no ar e debitarem o que não perceberam. Já que gostam de argumentos de autoridade, ponham os ouvidos em Emmanuel Macron que, apesar de cara de betinho, tem palavras de homem.

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