Jerusalém

O meu bairro inovou sempre. Ainda Mary Quant hesitava se subia as saias um palmo ou palmo e meio e já as minhas vizinhas lavadeiras usavam minissaia (não sei como lhe chamavam, talvez só saia). Mas foi Quant quem acabou por ser condecorada Dame Commander (cavaleira, se quiserem) da Ordem do Império Britânico, por mérito industrial.

E foi no campo de areia vermelha da missão de São Paulo, também no meu bairro, que vi jogar pela primeira vez o Jacinto João, o JJ. Hoje, se eu o quiser voltar a ver, tenho de ir ao Estádio do Bonfim, em Setúbal, onde o JJ está em estátua. Ele adorava fintar tudo, até bandeirola de canto. Agora está numa rotunda, ao lado de um candeeiro, deve driblá-lo de madrugada quando ninguém está a olhar. Como vos dizia, no meu bairro tudo já tinha acontecido antes de os outros irem dar conta e se maravilharem. Ah, se o meu bairro tivesse sabido o que eram patentes, era hoje rico!

Claro que não vou revelar o nome do meu bairro nem o da minha cidade - não sou gabarolas. Mas tínhamos tudo e antes de todos. E nem tudo era gente decente, havia um garoto que não o era, mas mesmo esse era uma figura extraordinária. Chamávamos-lhe Kwata-Kwata, nome que vinha de guerra suja, a pior de todas, a de apanhar gente para a vender. Para vocês entenderem melhor, eu podia chamar-lhe Agarra-Agarra, mas isto passou-se há mais de meio século e nessa altura eu e o meu bairro ainda não sabíamos que tínhamos de vos fazer traduções. Em todo o caso, seria uma má tradução, Agarra-Agarra daria a ideia do assim batizado chegar-se à frente, faria supor que ele usava alguma coragem de vez em quando. Ora, o Kwata-Kwata do meu bairro açulava, impelia os outros para a ação, para a luta, mas, ele, está quieto!

Podia ser com cães, dois que só mostravam os dentes e rosnavam, coisa de marcar terreno, mais nada. Gente de bem dava dois berros, afastava-os e até lhes atirava um balde de água para os acalmar. Mas se o Kwata-Kwata aparecia, era certo que ele se punha também a rosnar - sempre com as suas canelas suficientemente longe para não serem abocanhadas pelo cão mais de cabeça perdida. "Ksss... Ksss..", sibilava ele para amalucar os combatentes. E se fossem canitos, daqueles que nem a ele faziam medo, o Kwata-Kwata empurrava o mais forte para despedaçar o outro.

O Kwata-Kwata era alto para sua idade, tinha uma guedelha loura que penteava em poupa esquisita e mãos pequenas. Elas enrodilhavam-se uma na outra, azeitadas e excitadas, quando o cão perdedor gania de dor. Nessa altura, ele, que falava pouco - era mais de exclamar e quase sempre o mesmo -, fazia beicinho, juntava dois dedos das mãos pequenas e usava o seu curto vocabulário: Boa!, assim é que é!, lindo!...

Ainda mais do que a cães, ele adorava açular pessoas. Se dois miúdos se chocavam num campo de futebol, o Kwata-Kwata, que era sempre o árbitro e dono da bola (o pai era tasqueiro e o mais rico do bairro), interrompia o jogo e dizia ao maior dos miúdos: Se fosse comigo eu ia-lhe às fuças... E agarrava a bola para que o jogo não interrompesse a luta dos outros. Com os dois engalfinhados por terra, o Kwata-Kwata andava à volta deles: "Boa!", "assim é que é!", "lindo!..."

A poliomielite tinha feito uma incursão, anos antes, no meu bairro. No nosso grupo havia um miúdo com uma perna mirrada e outra normal. A mirrada era dançarina, o que dava um andar assimétrico ao garoto. Quando ele estava presente, o Kwata-Kwata adorava lançar um grito, apontando para algo no chão que não existia: "Uma barata!" Grito dado, punha-se a coxear e com o pé da perna fingida de mirrada fazia de conta que esmigalhava uma barata. Entretanto, ia dizendo: "Deixa a barata que eu mato!" Mas do que gostava mesmo era de mostrar que gostava da fraqueza dos fracos. No fim, ria-se muito: "Lindo!"

Na minha terra, onde estava a minha cidade e o meu bairro, havia naquele tempo uma guerra. Um dia, um casal vizinho, cujo filho tinha desaparecido para combater por um dos lados, vestiu-se de preto. No meu bairro, esse lado não era o mais popular. Soubemos o que tinha acontecido quando o Kwata-Kwata, à porta da igreja, pôs-se a mimar um homem a ser espingardado. Fingiu cair morto, e logo ao lado do casal vestido de preto, que saía da missa. Semanas depois, o bairro soube que outro jovem que fora para tropa - esse, para o lado mais apreciado no bairro - foi preso pelo outro lado e feito prisioneiro. Dessa vez, o Kwata-Kwata não fez cenas gagas. Mas soprava todo o desprezo que tinha pelo rapaz: "Não gosto de quem se faz apanhar."

Anos depois, ele foi também chamado para a tropa, mas ficou livre. O pai tasqueiro tinha pago uma boa maquia, com certificado médico garantindo um problema numa perna. Ainda hoje o Kwata-Kwata é apanhado a baralhar-se quando lhe perguntam pela perna que o salvou da guerra. Umas vezes, é a direita, outras, a esquerda. É giro porque quando gozava com o miúdo da perna doente verdadeira, ele mancava sempre com a perna certa. Quando era para fazer mal aos outros, o Kwata-Kwata era sempre muito profissional.

Anos mais tarde, num livro do Astérix, conheci uma personagem que fazia mal a toda a gente. Metido numa arena do Coliseu, salvava-se porque os leões matavam-se uns aos outros. No álbum português, o nome dele era Tullius Venenus; no francês era ainda pior, Tullius Détritus. Ainda pensei que podia ter sido inspirado no Kwata-Kwata do meu bairro, afinal no meu bairro acontecem coisas antes de chegarem ao mundo... Mas no Astérix aquela personagem era apresentada como semeador de cizânia. Não podia ser o meu Kwata-Kwata, demasiado estúpido e curto de vocabulário. Saberia lá ele o que era cizânia e, muito menos, fazer mal pela astúcia...

Não perdi pela demora. Se o Kwata-Kwata não entrou em banda desenhada, inspirou a vida real. Estúpido, simplesmente estúpido e mau como só ele, um sósia mandou deslocar a Embaixada dos Estados Unidos em Israel para Jerusalém. O mal dos outros é: "Lindo!"

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