Há que saber tudo

Escrevi tanto contra esse toca e foge que, tendo José Sócrates na mira, indiciava um comportamento de hienas... Nunca confundi esse comportamento com a crítica política ou antipatia pessoal que muitos declararam contra ele, ambas, justas ou não, legítimas. As acusações contra as quais me insurgia pertenciam à canalhice. Dois exemplos. No sábado, num debate televisivo e num artigo de jornal, a jornalista Felícia Cabrita referiu, sobre os gastos de Sócrates, a necessidade de ele sustentar "antigos vícios". E, no domingo, nos diretos do Campus de Justiça, um indivíduo de óculos escuros aparecia frente às câmaras mostrando o cartaz "Libertem XX". No cartaz, o nome inteiro de um ator. Esse o pano de fundo das acusações: calúnias. Esporadicamente, sopravam-se ligações do ex-primeiro-ministro a processos judiciais. Sopro, ar: nunca foi acusado. Calúnias e não processos - contra Sócrates foi o que houve, e só. Agora, temos uma situação nova. Magistrados acusaram e um juiz considerou haver indícios para prosseguir um processo contra Sócrates. A situação nova espevitou a canalhada, por um lado, e, por outro, os cidadãos pró e os cidadãos contra Sócrates. Para com os primeiros, repito o meu desprezo. Dos segundos, pró ou contra, espero o reconhecimento trivialmente democrático: cabe aos juízes julgar. E espero também uma vontade cívica forte: há que estar atento aos nossos interesses. Há que saber tudo. Aos pró e aos contra: sejam por nós.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?