Era uma vez um país chamado Venezuela...

Gabriel García Márquez viveu dois anos em Caracas, era ele repórter. Foi pago por uma revista para contar a queda do ditador empreendedor Pérez Jiménez, em 1958, e o que se seguiu. O futuro nobel, por enquanto jornalista, pôs-se a escrever sobre "Caracas, a infeliz", como lhe chamou. Então, entre as autoestradas, os viadutos e os hotéis com piscinas aquecidas - cada obra, terceira, quarta ou quinta "maior do mundo" - e muita carência geral, García Márquez convocava para as suas reportagens as histórias de uma velha venezuelana, exilada de outra ditadura, que marcara a infância dele, no país vizinho, Colômbia.

A velha exilada narrara-lhe as fábulas e os contos infantis, mais ou menos iguais em todas as latitudes, integrando-os nas suas, dela, pátria e cidade. A Bela Adormecida perdia o sapato de cristal num hotel caribenho onde se tocavam boleros, o Capuchinho Vermelho era tentado, não pelo lobo mas por um ditador dos anos 1930, e assim por diante. E o facto é que esses contos e essas personagens reapareciam nas reportagens de García Márquez. Por exemplo, ratazanas mortas de sede pelo longo corte de água na infeliz Caracas. Como veem, penúrias e bens racionados na Venezuela não são só os dos noticiários atuais. Talvez sem efabular não seja possível contar aquele país.

Invento, mas não muito, as datas coincidem, andava o grande contador colombiano a fazer jornalismo imaginativo e eu, garoto, estava no cinema do meu bairro luandense, onde passava Maracaibo. Uma xaropada de Hollywood que vi fascinado como se de um conto infantil se tratasse. O rapaz amava uma loura nos intervalos em que tinha de apagar as chamas de uma plataforma petrolífera que ardia no lago de Maracaibo - sem o heroísmo, a part-time, do rapaz, a cidade explodia. Não sou dos maçadores que contam o fim dos filmes e sobre o assunto não digo mais.
Um dia, em 2007, um taxista levava-me à fronteira colombiana, ao estado de Táchira, onde tinham sido raptados quatro portugueses, três deles crianças. O motorista também era português e fartou-se de me prevenir sobre Maracaibo, a cidade por onde íamos passar. Perigosa, sobretudo à noite. Ao chegar, ao meio da tarde, até o velho automóvel se mostrou temeroso, recusou avançar. Tivemos de chamar um reboque, que só apareceu ao fim da tarde.

Subiu-se o carro para o reboque, o patrício pôs-se ao lado do condutor e eu fiquei sentado, lá em cima, no mesmo assento do automóvel onde vinha percorrendo a Venezuela. Entrei, noite cerrada, na cidade de Maracaibo, a desamparada, sem iluminação pública que me permitisse confirmar se tinha explodido no último meio século. Um buraco levou o reboque a saltar e o meu automóvel reanimou-se. As rodas continuavam paradas, mas as luzes e a buzina de alarme puseram-se a acender e apagar e a berrar, sem botão que as calasse pelas ruas da perigosa Maracaibo. Há terras assim, de realismo fantástico até no asfalto esburacado.

Dias mais tarde, em Caracas, um jovem barbeiro que fazia vídeos sobre rebeldes sem causa apresentou-me cangalheiros. Eu queria saber porque recusavam eles fazer velórios noturnos quando o morto era de gangues juvenis. Contaram-me: tornara-se hábito na juventude transviada levar o falecido para uma última ramboia pela noite de Caracas.

Sendo isto assim, ainda não dou a minha opinião sobre a situação institucional de exceção que é a Venezuela com dois presidentes. Vou ler alguns pareceres e já volto. Entretanto, deixem-me reportar como deve ser: era uma vez um regime estúpido que ia destruindo um país e tudo dentro da legalidade democrática. Do que se lembrou um desconhecido ainda verde na política? Gritou: "Apesar de tão maduro, o presidente não cai. Então, o presidente sou eu!" O miúdo de O Rei Vai Nu não disse outra coisa.

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