Até os espiões, é tudo likes e assim

Desde O Espião Que Veio do Frio, sabe-se que isto de espiões nunca é simples. Lembrem-se, Richard Burton, esse alcoólico militante, até aparece numa cena a beber um Mateus Rosé, e a gostar. Então, se ele, espião inglês, atravessa a Cortina de Ferro, denuncia um espião, que passa por comunista, para que ele se safe, e outro espião comunista, esse leal, se lixe, isso pode baralhar Claire Bloom, que é uma ingénua. Mas como Burton lhe ensina: "Sabes o que são os espiões? Uma cambada de bastardos." Porém, vão morrer os dois, numa redenção, porque Burton não abandona a ingénua. Essa é a parte que eu não entendo na nossa atual história de espião. Ele vai a Roma, para um encontro que pode ser fatal. Sim, sim, ele espera que não seja fatal, mas sabe que o pode ser, pois não é estúpido. Como sei que ele não é estúpido? Porque, dias antes de ser preso, ele cita, no Facebook, frases de Garry Kasparov, La Boétie e Tácito, escolhidas com critério, de quem não aprecia a manada e respeita o indivíduo. Como, então, ao partir para um encontro perigoso, que lhe pode destruir a honra, deixa o Facebook aberto a todos, onde os seus familiares e amigos ficam expostos e destroçados? Com fotos do casamento dos pais e dele próprio, menino, na praia, que proporcionam o enlevo duma velha tia: "Lembro-me bem deste menino..." Ou, se calhar, entendo: já vivemos tempos em que até as ingénuas e os espiões já não escondem os diários e as almas. É tudo likes e assim.

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