A moda é provocar vizinhos

Luigi Di Maio é o líder do Movimento 5 Estrelas e acaba de oferecer apoio digital aos manifestantes franceses do movimento "coletes amarelos". Isto é, um político italiano proclamou dar ajuda àqueles que fazem movimentos sediciosos no país vizinho - manifestações não autorizadas e violentas - para eles melhor se organizarem.

"Não se rendam, o M5S apoia-vos!", disse Di Maio. Não se rendendo, os "coletes amarelos" podem continuar a ocupar as rotundas francesas, a partir vitrinas das lojas francesas e a queimar automóveis franceses.

A proposta de ajuda, claro, estava integrada no inalienável direito de quem quer que seja dar a quem quer que seja o que quer que seja e gritar aos microfones esse apoio. Não sei em que artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos está consignado tal direito, cito de memória, mas certamente alguém na caixa de comentários desta crónica há de lembrar: "Eu cá dou o que me apetece e a quem me apetece." Pois. Acontece, porém, que Luigi Di Maio é vice-primeiro-ministro de Itália.

Vice-primeiro-ministro de Itália, Itália que tem 488 kms de fronteira com França. França que enviou Stendhal escrever Viagens em Itália. Itália que exportou Yves Montand para ele cantar para o mundo em francês. Francês em que se tornou Pietro Brazzà para explorar África em nome de França, apesar de ter nascido em Castel Galdolfo, na província de Roma.

Roma do rei de Roma, Napoléon François Joseph Charles Bonaparte, filho de Napoleão. Napoleão que não roubou La Gioconda - nem na primeira nem na segunda campanha que o imperador fizera em Itália (séc. XVIII), num intercâmbio que já levara as legiões romanas de Júlio César à Bretanha (séc. I a.C.) - porque a pintura já estava em Paris, 300 anos antes, levada pelo autor, o italiano Leonardo da Vinci... Enfim, Itália e França, dois países mais do que amigos, um encontro antigo e profundo, naturalmente ligado na União Europeia...

"Não se rendam, apoio-vos!", disse o vice-primeiro-ministro italiano Luigi Di Maio aos insurretos que atacam o legítimo e eleito governo francês. Foi insulto mas não uma novidade nas relações entre dois países aliados e com negócios e pactos comuns. Na campanha eleitoral que o levou à Casa Branca, Donald Trump propôs um muro que ainda hoje insiste em fazer entre os EUA e o México. E permitiu-se um chiste: disse, então, que o muro seria pago pelos mexicanos "mas eles ainda não sabem..." Conhecem maior insulto que a prepotência apresentada em forma de gozo?

Em qualquer bairro, a falta de respeito entre vizinhos abre o apetite que leva muitas vezes à bofetada. Os países criaram a diplomacia para prevenir tais derivas. Vale de pouco quando palhaços de cinco estrelas chegam a vice-primeiro-ministro e carroceiros milionários chegam a presidente.

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Adriano Moreira

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A Carta das Nações Unidas estabelece uma distinção entre a força do poder e o poder da palavra, em que o primeiro tem visibilidade na organização e competências do Conselho de Segurança, que toma decisões obrigatórias, e o segundo na Assembleia Geral que sobretudo vota orientações. Tem acontecido, e ganhou visibilidade no ano findo, que o secretário-geral, como mais alto funcionário da ONU e intervenções nas reuniões de todos os Conselhos, é muitas vezes a única voz que exprime o pensamento da organização sobre as questões mundiais, a chamar as atenções dos jovens e organizações internacionais, públicas e privadas, para a necessidade de fortalecer ou impedir a debilidade das intervenções sustentadoras dos objetivos da ONU.