A lição à Europa do voto português 

Vou inventar uma palavra. Cunhá-la. Registar a patente. A palavra: geringonça. Admito, roubei a ideia a outro. E, por outro, não me refiro a Vasco Pulido Valente, que terá falado de geringonça acerca de um qualquer tema, e não me refiro também a Paulo Portas, que sobre o governo que se fazia em 2015 lançou a palavra no Parlamento. Isso foram só conversetas, palheta. Refiro-me ao pai, não o putativo, mas o autor da coisa geringonça: António Costa.

Naquela noite das últimas legislativas quase todos concordaram com o facto notório: o PS perdera. O que vinha, aliás, na esteira da campanha desastrada do partido. Dessa derrota, lida corretamente por quem conhecia a tradição nacional - comunistas e bloquistas são para protestar, não para governar -, Costa fez, afinal, uma vitória legítima. Aquilo foi batizado como geringonça, mas mais justamente deveria ser chamado de "ovo de Colombo". Era óbvio que, partindo a casca da repugnância do BE e do PCP em fazer, era possível um germe, um princípio, uma célula reprodutora - um ovo, enfim - pôr-se de pé. Mas, lá está, ninguém se lembrara antes... O líder socialista propôs à outra esquerda um acordo e convenceu-a. E, pelos vistos (agora, confirmado), os portugueses gostaram.

Desta vez, europeias 2019, António Costa (em tática vencedora não se mexe...) voltou a lançar uma campanha trapalhona. Desconhecido do público e mau candidato, o cabeça-de-lista Pedro Marques não era retrato nem discurso para uma apresentação dispondo de tão pouco tempo para se impor. Já para não falar no evidente desperdício de não se aproveitar a ocasião para uma cabeça-de-lista... O PS tremeu, Costa preferiu não esperar pelos resultados e personalizou, ele, a campanha. Com a sorte dos audazes, beneficiou até do PSD e do CDS, que, ao arrepio das suas bases, e por mero oportunismo eleitoral, se meteram naquela tolice dos retroativos dos professores.

Neste domingo europeu e eleitoral - no meio de resultados que, no essencial, sublinharam a confusão geral - o PS português, que vai completar a legislatura (uma raridade na UE), cavou um fosso de mais de 11 pontos percentuais em relação ao seu mais direto adversário. E tudo, repito, partindo de uma criação aparentemente fantasiosa, a tal geringonça. E é isso que eu quero cunhar, registar, patentear: geringonça, mas a coisa. Coisa mais do que a palavra, pois essa é mera brincadeirinha.

Portugal merece mais geringonças dessas - políticas, factos, coisa. Não de palavras fátuas. E isso vai muito para lá dos protagonistas da atual geringonça

Por acaso, nos últimos quatro anos legislativos tivemos outra atoarda, lançada para gozar e que se virou, como certos feitiços, contra os brincalhões: o sorriso de Mário Centeno. Num país de soberbos, aquele arreganho ingénuo formado em Harvard, apesar de sucessor de medíocre ministra, foi desdenhado. Lembrem-se de Marques Mendes: "Centeno no Eurogrupo? Ah, ah, ah..." Foram precisos números e números e números para deixarmos de ver aquele sorriso ou, vendo-o, ficarmos a ver que nele havia mais. Aquele trejeito facial foi a geringonça-palavra. Ora do que precisamos de dar conta - e ontem os portugueses mostraram que sabiam - é da geringonça-resultados. Factos que, felizmente, não se deixaram morrer à nascença pela brincadeirinha.

Portugal merece mais geringonças dessas - políticas, factos, coisa. Não de palavras fátuas. E isso vai muito para lá dos protagonistas da atual geringonça. Um povo que, hoje e na Europa, deita fora a rançosa extrema-direita, reciclada do caixote do lixo da História, exige que os partidos que ela escolhe para o representar (alinho: PS, PSD, BE, PCP, CDS e PAN) o mereçam.

Em Portugal são irrelevantes os imbecis que votam. Confirmou-se ontem. Isso tranquiliza mas também aumenta a responsabilidade dos que vão a votos: não se podem desculpar com a força maléfica dos imbecis. Assim podem ser inteligentes, ambiciosos, ousados, solidários e abrangentes, podem aliar-se, sem vergonha, em toda a paleta que representa o povo. Caramba, olhem pelo continente inteiro à volta e deem-se conta da herança democrática que os portugueses ofertaram aos seus eleitos. Olhem para as geringonças estratégicas ou práticas, uma a uma e todas, que o génio democrático nacional vos põe à disposição

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