Entretanto, numa galáxia que nos escapa

Quando José Sócrates foi detido adivinhava-se para o fim da instrução do processo um de dois males. Ou haver indícios para levar um ex-primeiro-ministro a julgamento ou os investigadores, depois da detenção de grande aparato, não conseguirem matéria para acusar. Longos meses decorreram, o ou-ou não chegou mas duas coisas comprovaram-se. Por um lado, soube-se, por palavras do próprio Sócrates, que ele pedira muito dinheiro a um amigo; ora, tendo este feito negócios com o Estado enquanto Sócrates era governante, era legítimo que a justiça investigasse. Por outro lado, a investigação arrastou-se e permitiu abusivas fugas de informação. Quer dizer, das duas más hipóteses iniciais, passámos para duas más confirmações: alguns métodos e a lentidão da justiça eram inadmissíveis e, pelo menos politicamente, José Sócrates tinha explicações públicas a dar. Ao saber-se, ontem, que haverá mais seis meses de investigação aumentou a suspeição de processo falhado. Entretanto, o juiz Carlos Alexandre deu uma entrevista com remoques ao investigado indignos de um juiz do processo. Legitimamente, Sócrates pediu para que o juiz seja afastado do processo. O que, depois deste tempo perdido, seria, de facto, o fim do processo. O que nos leva, caso o juiz seja mesmo afastado, a uma terrível ironia. Pode ser que os interesses do investigador e os do investigado confluam por uma vez: um livra-se do que não pôde provar e o outro de que se prove qualquer coisa.

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