É Carnaval e muitos cliques levam a mal

Uma loja de tabuleta lisboeta, A Casa do Carnaval, pôs à venda um traje a que chamou "Fato para Refugiado Menino". No catálogo, o casaco e os calções com meias altas a condizer, para miúdo de 6 anos, 15 euros. O original é inglês, inspirado nos garotos que fugiam de Londres bombardeada, na II Guerra Mundial, e partiam só com uma sacola a tiracolo. Os ingleses homenageiam essa figura histórica anualmente, em peças de teatro nos cais da British Railways, e os interessados compram os trajes de fantasia numa empresa especializada, a Fancy Me, que também os vende para o Carnaval e festinhas infantis.

Os miúdos protagonizaram a sua parte na história britânica, num momento em que a coragem, a resistência, isso, ia um pouco mais além do que dar um clique de prova de vida em teclas movidas por "gosto" de gatinhos fofos e por "não toquem na minha causa", que calha agora ser o refugiado. Daí, ontem, por cá, ter sido uma berraria contra o "asqueroso" ganhar dinheiro à custa dos refugiados. O banzé é que ganhou, o fato foi retirado de venda. E, é verdade, pode perguntar-se o que leva um pai português a comprar, e no Carnaval, um "Fato para Refugiado Menino". Pode, mas querem mesmo discutir a lógica dos fatos carnavalescos?

Seja. Para já, meninos refugiados como os londrinos, e da mesma época, houve no cais de Alcântara a partir para a América ou a esperar visto na Ericeira ou a ir buscar carne ao talho Kosher perto do Rato - e isso no meio da miséria moral de muitos portugueses mas também da grandeza de alguns outros. Não pode um pai português querer lembrar esse passado e lembrá-lo vestindo assim o filho? Porque lembrá-lo se deve, e se tiver de ser no Carnaval, que seja.

E, já agora, porque não há campanha contra o "Fato Cabaret Western Menina de 3 anos"? Conhecem o dia-a-dia (e a noite) das dançarinas de cancã em Pecos? Eu tenho pormenores, falta-me é vontade de manifes na ponta dos dedos. A sério, estamos a discutir trajes de Carnaval? Então discutam rápido, daqui a dez anos só se está a vender o "Fato de Biólogo Marinho", unissexo, gentil e biodegradável.

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