Discurso sobre a Europa: Ozil e Mbappé

Ozil, o bom futebolista alemão que jogou 92 vezes pela Alemanha, anunciou no domingo passado que nunca mais vestirá a camisola da sua seleção. A decisão deve-se, diz ele, porque se sentira vítima de "racismo" no seu país, meses antes, quando se fez fotografar junto do presidente turco Recep Erdogan, apoiando-o. Ozil é de origem turca e não admite que a sua situação dupla - a nacionalidade alemã e a origem turca - permita as críticas que lhe fizeram.

O tema é complexo e moderníssimo. Dias antes da decisão de Ozil, houve outra polémica internacional à volta do mesmo assunto. O comediante televisivo sul-africano Trevor Noah, no seu programa americano The Daily Show, aplaudiu os vitoriosos do último Mundial de futebol, assim: "Ganhou a África! Ganhou a África!" Para ele, havendo muitos jogadores negros na seleção francesa, ganharam os africanos. O embaixador francês em Washington discordou: a seleção era de franceses.

Começamos por ter aqui um padrão: a nacionalidade é algo menos monolítico do que se pensava. Os portugueses estão bem colocados para entender essas ambiguidades. Somos um povo de emigrantes, que é saudoso do sino da sua aldeia mas não deixa também de ser reconhecido pela lealdade com o país que o acolheu. Na segunda geração, o filho do imigrante luso, por hábito, faz gala da pertença ao novo país. Não sem razão, foi um português de Queluz, o príncipe Pedro, que lutou pela independência do Brasil e foi o seu primeiro Imperador.

Amin Maalouf, que nasceu libanês, árabe e cristão, e se tornou membro da Academia Francesa, ditou o essencial dos deveres de um imigrado no seu novo país: "Primeiro, aprender a cultura da terra de chegada; segundo, oferecer a esta, o melhor que trouxe da terra natal." Pelos vistos há muita gente de origem africana que ajuda a França a ter muito jeito numa antiga arte inglesa (o association football), coisa bem bonita. Mas da primeira parte da equação de Maalouf, no futebol, nem sempre se passou assim.

Há tempos, houve franceses de origem africana que jogavam na seleção francesa e não cantavam a Marselhesa. Tinham esse direito, a França pode preferir que lhe cantem o hino, mas não proíbe o não cantar. Ozil também pode fotografar-se com Erdogan, apesar deste defender uma forma de sociedade que não é a maioritária na Europa e apregoar, até em comícios eleitorais na Europa, que os imigrantes turcos devem lutar por esse modo de vida na Europa. Sorte a de Ozil por poder fazer essa escolha, porque a Europa permite que ele a faça. Azar meu, que não estou interessado no que ele pensa mas no que ele joga e agora resta-me só vê-lo no Arsenal.

Já do jovem francês Mbappé espero tudo, muito mais do que de Ozil. Ele representa todos que foram referidos na polémica "franceses ou africanos", o seu pai é origem camaronesa e a sua mãe de origem argelina, e o seu toque de bola faz-me lembrar muito o toque de bola dos africanos Peyroteo e José Aguas (para o caso pálidos, estes dois angolanos). Mas, para além do que Mbappé oferece ao país que acolheu os seus, reconheço-lhe a inteligência social e a contribuição cívica de fortalecer a identidade do seu país. Antes de ser campeão, Mbappé disse numa entrevista ao Le Monde: "Quero encarnar a França, representar a França e dar tudo pela França."

E ainda há quem não goste de futebol, um dos mais poderosos cimentos para fazer de nós o que somos, nós.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG