Bora ver Miguel Macedo outra vez interrogado na TV?

Há gente que foi condenada por corrupção no caso dos Vistos Gold. Ainda bem, ainda bem, ainda bem. A corrupção corrompe, como o seu nome indica. É gangrena que se espalha. Não doam as mãos aos polícias que investigam e provam e aos juízes que julgam e condenam. Ainda bem, ainda bem, ainda bem.

Porém - sim, há um porém, e enorme, nesta história de justiça - a sentença veio relembrar um ato badalhoco da justiça portuguesa e do jornalismo português. Volto de novo à palavra mais feia que conheço da nossa língua e que já usei em vez precedente. Volto à badalhoquice.

Denunciamos - pouca gente, eu e alguns mais - o que vimos e não viu toda a justiça portuguesa, nem todos os jornais portugueses, nem toda gente de bem, quando a badalhoquice apareceu. Foi badalhoco terem filmado Miguel Macedo, ex-ministro, e Jarmela Palos, ex-diretor do Serviço de Estrangeiros e Fronteira, durante interrogatórios em que os procuradores investigavam o caso e que, depois, deixaram as imagens serem transmitidas publicamente por uma televisão.

Naquele interrogatório, viam-se as mãos, os olhos, as hesitações de voz e os trejeitos de boca - a câmara fixou tudo e a televisão permitiu a humilhação tantas vezes quanto canalhas o quisessem, rebobinando a canalhice. Aqueles homens foram humilhados perante um país bovinamente calado, quando não ruminando por mais palha.

Estive e estou indignado e não lamento dizer ao país bovino que não era a baixeza dele que me preocupava. Uma entidade que regula os media obrigou o jornal onde me indignei a publicar as explicações da autora da badalhoquice. Por seu lado, a entidade calou a badalhoquice. E, efeito dessa baixeza e desse calar, outros canais televisivos passaram a publicar a humilhação dos interrogatórios judiciais.

A minha indignação não ia para esses. Eu quis é que os humilhados soubessem haver uma indignação. Não conhecia pessoalmente, nem conheço, nenhum. Conhecia era a possibilidade de haver alguém, um jovem adolescente, por exemplo, a quem foi exposto o seu pai humilhado. Insuportável. Não conheço melhor razão para escrever num jornal.

Foi badalhoco terem filmado Miguel Macedo e Jarmela Palos durante os interrogatórios e deixado que essas imagens fossem exibidas publicamente. E isso foi então - não só agora quando se sabem ambos inocentes. Já era badalhoco o que lhes fizeram quando eles eram suspeitos! E, já agora, também o seria mesmo que Macedo e Palos fossem estrangeiros, sem visto gold nem documento de pobre, seria badalhoco mesmo que nem cidadãos fossem. Eram homens que tu não podes humilhar, já agora também, apesar da condição de ex-ministro e de ex-alto funcionário te incitar a inveja.

Ainda bem, ainda bem, ainda bem que corruptos foram condenados. Mas, aí, já estamos num patamar superior: ninguém ousa aplaudir a corrupção. O mais importante do noticiário de hoje foi, talvez, mais gente ter percebido, talvez, a urgência de acabar com uma badalhoquice nacional: a humilhação pública dos interrogatórios judiciais. Talvez, não é SIC, TVI e RTP?

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