Aznavour e Macron, o rap e o dedo do meio

Charles Aznavour nasceu em Paris, mas nasceu Shahnour Vaghinagh Aznavourian. Ou mais complicado do que isso se o seu nome fosse escrito em arménio, língua antiga, ainda mais do que o francês mais antigo. Shahnour foi um francês de acaso, os pais iam a caminho da América. O parto interrompeu a viagem dos Aznavourian, se não eles bem poderiam estar num convés de navio, entrando na bacia do rio Hudson e balbuciando a ilusão: "América, América!", como no filme de Elia Kazan, com os imigrantes arménios frente à Estátua da Liberdade, fugindo do genocídio que lhes acontecia naqueles tempos. Shahnour foi um moderno cidadão comum, nasceu num acaso.

Tantas línguas, datas, filmes, lugares, tanto, porque é inevitável que seja assim, a história comum dos homens é vasta. A de Charles Aznavour também é comum: ele é só mais um francês que veio do mundo (como os cantores Montand, italiano, Brel, belga, Moustaki, grego de Alexandria, Dalida, italiana do Cairo). Filho de viajantes, da imigração, como a modernidade chama a uma das mais vulgares atividades humanas. Com este acréscimo, também vulgar: ele é dos imigrantes que se confundiram com a nova pátria e a enriqueceram. O francês de acaso é autor das palavras de mil canções (está bem, metade disso), muitas delas de sucesso mundial: La Mamma, Sa Jeunesse, La Bohème, Que C'est Triste Venise...

Mas quero falar-vos de uma que não é de letra sua, só algumas palavras em canção de outro. Há dez anos, 2008, o filho de imigrantes da década de 20 do século passado cantou numa canção de um imigrante do novo milénio. O haitiano Kery James, negro e rapper, gravou À l'Ombre du Show Business, À Sombra do Negócio do Espetáculo... Herói popular das banlieues que cercam Paris, Kery James lançava um rap com inspiração que parecia vinda de algures, negra, o vídeo abria com fotos de Miles Davis, Billie Holyday, Ella Fitzgerald, mas, de repente, a foto de Charles Aznavour.

A língua francesa surgia num rap duro e sincopado, mas tão de francês límpido e cortante como uma canção da Comuna de Paris. Kery James desesperava: "A minha arte é um diamante atulhado de cimento". Esperava: "Oh, como amo a língua de Molière, estou ao nível das suas palavras, sabes tu...", cantava o haitiano. Aí, aparece a voz rugosa de sempre, mas nunca partida nem então com 84 anos, do seu companheiro de destino: "É preciso ser otimista, meu irmão", canta Aznavour, em resposta: "Porque toda uma juventude te segue/ A luz pode renascer..." Uma canção desesperada de um jovem transcende as diferenças graças a um velho que nos diz: assim queiramos nós...

Charles Aznavour, um antigo francês de acaso, um francês de sempre, morreu hoje. Há dois dias, o presidente francês Emmanuel Macron esteve em Saint-Martin, ilha francesa das Antilhas devastada há um ano por um ciclone e onde escandalosamente a reconstrução continua lenta. Um adolescente negro fez uma fotografia com Macron e nela vê-se o jovem a exibir um indelicado dedo médio teso... Grande escândalo nos salões parisienses, maior do que o denunciado dias antes por as roças bananeiras das Antilhas francesas serem envenenadas pelo hexabromobifenil, produto tóxico que causa cancro há várias décadas.

Macron mandou pastar os hipócritas e não criticou o jovem malcriado: "Amo cada filho da República, quaisquer que sejam as suas tolices, porque muitas vezes, porque filho da República, ele não escolheu onde nasceu e não teve a oportunidade de fazer outra coisa." O artista Charles Aznavour saberia dizer isto com mais melodia e melhores palavras, mas no fundo era o que diria.

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