As cores com que se pinta um país e mais do que ele

O mapa que encima esta crónica distribui alguns estados americanos com as cores que se convencionou dar à política americana: vermelho para o partido Republicano e azul para o Democrata. Ele mostra uma hipótese improvável que é ver aqueles estados que tocam no oceano Pacífico (Oregon) e no Atlântico (os dois pequenos Maryland e Delaware) juntos pelo mesmo vermelho, numa fileira ininterrupta com outros, a votarem republicano. Há surpresas que, apesar de improváveis, não são impossíveis mas não aquelas nos extremos do mapa, que a acontecer pasmavam. No entanto, apesar da improbabilidade deste mapa, ele ajuda a explicar as presidenciais dos Estados Unidos.

Desde logo, porque é mapa. E estes, em eleições americanas, se não têm o carácter definitivo dos números do Colégio Eleitoral - que determinam que é presidente aquele que tiver 270 votos (metade e mais um dos 538 votos eleitorais) -, têm sentido dramático. Tão bem ilustrado quando uma vitória é histórica: em 1984, os 525 votos eleitorais de Ronald Reagan, contra 13 do democrata Walter Mondale, ainda ficavam mais impressionantes em desenho. A América pintado toda de vermelho, com a exceção do Distrito Federal (o da capital, Washington), que nunca vota republicano, e do estado do Minesota, de onde o infeliz candidato democrata era natural.

Os mapas, pois, pintam o país de forma fulgurante. Nas noites eleitorais atraem os olhares dos telespetadores, ansiosos pelo anúncio das tendências. A língua da Florida, tão dançarina, para que lado caiu? O nordeste continua azul como quase sempre? E, este ano, será que o Texas deixou de ser indefetível republicano? A América é um puzzle e os americanos, além do retângulo do país, sabem reconhecer pelo desenho muitos dos seus estados.

Mas os estados da América são como as ruas do Monopólio, há os ricos e os menos ricos. A riqueza dos estados, para as presidenciais, é a maior ou menor população, o que lhes dá equivalente número de votos eleitorais. E é esse o ensinamento fornecido pelo mapa lá em cima. A azul, dá-se de barato que aquela fila transversal e sem intermitência de estados votou republicano. Em imagem é impressionante: nove estados, de uma costa oceânica a outra, cinco mil quilómetros de largura, e naquela direção histórica, este-oeste, com que o país se fez. No final, a soma de votos eleitorais dá: 55. Ora, para tudo isso basta um só outro estado, a Califórnia, também com 55 votos. Paradoxalmente, na Califórnia nunca se faz campanha presidencial porque (desde o primeiro Bill Clinton, 1992) vota sempre democrata.

Estes ciclos acontecem na América. O Sul profundo, do sentimento de derrotado pela Guerra Civil, foi democrata durante décadas, para castigar o republicano Lincoln. Depois, virou republicano, para castigar os direitos cívicos de Kennedy. Mas não só de geografia e de história se faz a política. A demografia dá-nos uma dica: no Texas, o segundo estado mais populoso, 38 votos eleitorais, os hispânicos (de origem mexicana) são quem mais cresce. Em 40 anos, o Texas só uma vez votou democrata (no sulista Carter, em 1972) - hoje, o seu vermelho-carmesim torna-se roxo. Na madrugada de 9 de novembro, o primeiro olhar será para o ver já azul. Já, porque se não for desta, não será insultando os mexicanos que a tendência vai parar.

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