António Costa e Rui Moreira, segundo Assis e Macron ao fundo

No trajeto Paris-Lisboa, a viagem de cegonhas com bebés foi sempre, exceto nos prematuros, de 9 meses. No final do séc. XIX, a mesma viagem nas carruagens do Sud-Express - aquelas de onde Eça esperava, no cais, ver chegar o mundo - demorava 45 horas. Essa viagem, de gente nova ou de ideias novas, acaba de bater novo e extraordinário recorde: foi agora feita em -48 horas! Leram bem, 48 horas negativas. Emmanuel Macron é anunciado presidente, nas televisões mundiais, domingo à noite, e já, dois dias antes, na noite de sexta, Rui Moreira, na SIC, encarna a novidade. Paris chega cá antes de lá ter chegado.

A primeira e única pessoa que deu conta do incrível recorde foi Francisco Assis, ontem. O eurodeputado socialista (e crítico da atual direção do partido) intitulou a sua crónica no Público, assim: "De Paris ao Porto". Aleluia! Alguém que comenta, pensando, a política. Que a lê através das linhas de fundo que movem as sociedades. Aleluia!

Por razões que os hábitos repetidos, repetidos e repetidos nos vão, vão e vão condicionando, a questão política entre o presidente da Câmara do Porto e o PS estava sendo vista pelos ângulos habituais. Será que o toque de Costa nas costas de Moreira teve a pressão suficiente para penálti? Pizarro foi sujeito à manobra mata-leão? E assim por diante... Sem me apetecer ouvir mais uma vez o apelo para o videoárbitro e porque sou adepto de que os polícias policiem, entusiasmei-me ao ver, enfim, um político falar política.

Infelizmente, Francisco Assis pouco mais longe foi do que o piscar de olho do título da sua crónica. No início desta, ele analisa a vitória de Macron da forma certa. Candidato da economia do mercado, o francês foi sempre claro sobre as ilusões do protecionismo estatal: não sustentadas pela capacidade de serem pagas, não há promessas sociais. Junto a isso, que é a assunção de uma limitação, a defesa de uma esperança: a dimensão da política da França ou é europeia ou é nada. Essas duas intransigências de Emmanuel Macron, expostas claramente (por exemplo, pela presença constante dos símbolos da Europa, hino e bandeira, na sua campanha), foram a resposta que os partidos tradicionais, a governar a França há meio século, nunca haviam conseguido contra o extremismo da Frente Nacional.

Ainda estava Assis nesse Paris, o ponto 1 da sua crónica, e já metia a política pátria ao barulho. A resposta de Macron à extremista, estatal, antieuropeia e conservadora Marine Le Pen era também, escreveu ele, à "bolorenta extrema-esquerda" portuguesa. Por isso, esta (BE e PCP), igualmente estatal, antieuropeia e conservadora "espuma-se em delirantes declarações anti-Macron". Sou obrigado a concordar, tirando talvez o radicalismo do "bolorenta" e do "espumar".

E chegámos, então, ao ponto 2 da crónica de Francisco Assis, dedicada ao Porto. Cidade onde desde tempos imemoriais aterram cegonhas vindas de Paris. E há muito com uma ponte, a D. Maria, capaz de receber o que o Sud-Express trazia de novidades. Já para não falar que foi pela Linha do Douro que Jacinto, o de A Cidade e as Serras (outra vez Eça e a modernidade), regressou de Paris, entrou por Barca d"Alva e só não foi para o Porto porque a sua aldeia natal, Tormes, se interpôs. Mas quem duvida de que o Porto há muito bebe o que se passa na cidade de Gustave Eiffel (que, aliás, foi quem desenhou a Ponte D. Maria)? Fiquei suspenso de ansiedade. Que me ia dizer Assis - que, relembro, titulara "De Paris ao Porto" - sobre a relação entre a novidade do sucesso de Macron e o facto político português mais relevante da atualidade, a briga entre Moreira e o PS?

Para mim era claro, Rui Moreira, o líder político sem partido político, o homem do movimento O Meu Partido É o Porto, deixara--se embalar pelo movimento En Marche!, de Macron. E nas vésperas de o inspirador consagrar o seu sucesso e ser eleito, Moreira adiantou-se e cortou com o PS, tal como o ministro da Economia do presidente Hollande se demitiu, no ano passado, e anunciou que iria fazer caminho sozinho. E, já esta semana, entrevistado pela TSF, Rui Moreira cortou a direito, recusando qualquer compromisso com os partidos políticos. Na esteira de Macron, que preveniu aos da direita (Les Républicains) e da esquerda (PS), que ou aderem ao seu movimento ou terão os candidatos de En Marche! (o novo nome é République En Marche) contra eles.

Ora, esta afinidade de percursos não foi focada por Assis. Que, no entanto, a tinha em mente, pois não se esqueceu de lembrar que "até à data, Rui Moreira sempre recusou o discurso populista" - mais um piscar de olho para Macron... Então, por que razão Francisco Assis se fica pela sugestão do título, "De Paris ao Porto", e não o explicita no texto, nem quando escreveu uma frase de propósito para nos induzir a isso?

A resposta, claro, está neste simples facto: Rui Moreira não é nenhum Macron. O que levou aquele a seguir este não se ficou a dever a leitura política. Rui Moreira, sobre Macron, só deve ter tido uma aparição, fenómeno muito próprio da época. Um dia destes, lia ele sobre a França, a queda dos partidos tradicionais e a novidade em ascensão, e surgiu-lhe: "E se eu...?" Não, não ficou pela rama, não pensou em casar com uma mulher 24 anos mais velha, mas também não foi muito mais longe. Ficou-se pela independência dos independentes.

Quanto a Francisco Assis já deu um pequenino passo, mas faltam mais. Quando ele diz que António Costa tem governado como talvez Macron o venha a fazer, só o diz para pôr o BE e o PCP em contradição com eles próprios (o que é bem verdade). Mas a conclusão principal a tirar desse facto é outra. O que o PS fez, liderando aliados imprevisíveis, ao governar como Macron (Assis dixit), foi mostrar que um partido tradicional não tem de esperar, por destino inelutável, pela morte. E até pode, com estes ou outros aliados, ir mais longe, agora que a Europa pode renascer.

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