Amanhã eu vou ser eleito

Amanhã, domingo, pouco passava das 6 da tarde, o juiz-conselheiro Costa Soares telefonou-me. Eu sei que em princípio eu não deveria saber o que vai acontecer amanhã mas, hoje, de tanto dia em reflexão, tenho visões muito nítidas. "Parabéns, Sr. Presidente!", disse-me ao telemóvel, amanhã, o presidente da Comissão Nacional de Eleições. O meu primeiro pensamento foi: sempre é verdade, os gajos conhecem os resultados antes de as urnas fecharem.

O segundo pensamento foi: de que está este homem a falar?! Tive logo resposta, além de adivinharem os resultados, na CNE eles também devem ler a mente: "Ah, está surpreendido... Mas é verdade, foi eleito. E logo à primeira volta!", disse-me o juiz-conselheiro. "Mas qual eleito? Nem me candidatei!", protestei. Ele cortou: "Ó meu amigo, onde isso já vai... Antigamente é que havia normas, leis sem efeitos retroativos e bancos sem sustos! Não se candidatou, mas foi eleito, ora essa!" E antes de desligar: "Não se esqueça, dia 9 de março é a tomada de posse." Nem tive tempo de perguntar como devia ir vestido.

Um alvoroço levou-me à janela da cozinha. Espreitei, havia uma multidão que desatou a bater palmas. Isto da função presidencial deve ser coisa que se interioriza depressa. Dei por mim a acenar. Gritaram. Subi ao bordo da janela e, de pé, agradeci, cruzei os braços no peito. Enfim, iniciei o mandato com mais coragem do que Jorge Sampaio em 1996. Eu moro num 4.º andar e ele num rés-do-chão.

Aí, apareceu a minha mulher e perguntou o que estava eu a fazer na janela, de pé. Disse-lhe que tinha sido eleito Presidente da República. Ela disse: "Sempre quis conhecer a Capadócia." Desci da janela e não lhe prometi nada. Nem tinham passado dez minutos desde saber-me eleito e já me distinguira dos meus dois antecessores. Se calhar vou ser um Presidente marcante.

Por tradição os perdedores é que deviam cumprimentarem-me pela vitória. Mas como tinha escolhido um estilo novo, decidi ser eu a telefonar aos meus adversários. Claro, só o fiz aos três de quem gostava. Telefonei a Marcelo, que me disse não ter esperado outra coisa, senão a minha vitória; ao Tino, que me pareceu um pouco desiludido por não ir à segunda volta; e à Marisa, com quem me contive para não pedir o número de telefone da Mariana. Era só para saber como se fala com as câmaras, mas não quis começar o mandato com fama de velho lúbrico.

Quando acabei os telefonemas protocolares, o meu telemóvel começou a receber chamadas. Não reconheci os números. Atendi e era uma fadista. Depois, outra cantora e ainda uma atriz... Não calculam a quantidade de artistas que querem ser mandatárias para a juventude. Tive de lhes explicar que a coisa não era assim: mandatária era para a campanha, no fim já não era preciso. Afligiu-me começar o mandato a desiludir parte do povo português.

Por mais oficial que fosse o juiz-conselheiro, as televisões é que me confirmariam a vitória. Faltavam três quartos de hora para as 20.00, quando, depois do rodopiar de onze fotografias, a imagem se fixaria na minha cara: "E o vigésimo PR de Portugal é..." Lembrei-me, então: onde é que eles vão buscar uma foto minha?!

Pensei telefonar ao Dentinho, ao Alcides e ao Sérgio, oferecendo-me para lhes enviar uma boa foto. Desisti porque não queria dizer-lhes que eu já sabia dos resultados. Invejei o Marcelo... Ele não enviaria coisa nenhuma, às 20.00 entrava pelos estúdio da TVI: "Estou aqui! Estou aqui!", braços em "V", como os dedos do Churchill.

Para desacelerar o nervosismo, desci ao café. À porta do meu prédio já lá estava um PSP de plantão. Se alguma coisa funciona em Portugal ainda é o protocolo de Estado. Bati pala ao guarda. Num dia em que ele fazia de presidente, vi o Harrison Ford a fazer o mesmo. Cruzou-se connosco uma velhota, que entrava no prédio e estava curiosa. Já que havia o guarda a dar-me argumento de autoridade, disse-lhe: "Fui eleito Presidente, D. Amélia." Ela olhou a farda, olhou para mim, e pareceu-me desiludida: "Pensei que era do INEM e a vizinha do 3.º tinha ido à vida." E entrou.

Na rua já não havia ajuntamento e, no café, alguns, que da janela eu pensara ter visto a vitoriarem-me, desviaram a cara. O costume, sou eleito e depois não há um que diga que votou em mim. Já conhecia o destino dos políticos portugueses, serem renegados pelos seus, mas não sabia que era tão rápido. Voltei a casa, amargo, nem calculam o peso do país nos nossos ombros de estadistas.

Enfim, eram 20 horas e apareceu a voragem de tanta cara no abrir do telejornal. Deu logo para ver, não tinham mesmo a minha foto. Aliás, o vencedor não era eu, era... Não vão acreditar, mas senti alívio.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG