O que digo aos brasileiros de cá

Tenho um livrinho que se chama "Lembro-me que...", sobre os dias de 1974 que precederam o 25 de Abril. Escrevi-os em flashes, numerados, cada um começado sempre pela mesma ladainha ("Lembro-me que..."), contando em breves linhas uma memória pessoal ou compulsado em jornais da época. Diz o flash 273: "Lembro-me que, no último dia de março, domingo, o estádio José Alvalade encheu-se para jogo contra o grade rival. Dez minutos antes de o árbitro apitar, a multidão virou-se para a tribuna de honra, onde um homem se destacou e abriu os braços: ovação. Marcelo Caetano sorriu. Não sabia que era a sua última apoteose."

Eu não vi a apoteose porque em setembro de 1969 atravessei o rio Minho num batel, passei 5 anos como exilado político e só regressei com a liberdade. Depois da nossa fronteira atravessada clandestinamente, entrei num comboio em Orense, onde descobri que a esmagadora maioria era de passageiros portugueses, camponeses rumo a França. No meio da viagem, alguma confiança feita, confessei a um companheiro de carruagem que não tinha passaporte. Ele respondeu-me: "Aqui ninguém tem, vamos passar os Pirinéus a salto." Das conversas de antes e depois, ninguém me deu sinal de ser anti-fascista. Partiam por coisas prosaicas da vida, tais como ter uma vida.

Conheci bem a emigração portuguesa em Paris, a política e a outra. Portugueses a salto e sem ideologia conheci-os entre amigos, no trabalho e nos bidonvilles, os destes por os ir visitar, porque nunca vivi num bairro de lata, só em quartos pobres. E quando ia aos bidonvilles, o famoso de Champigny, por exemplo, eu fazia-o por razões políticas mas raramente encontrava gente que partilhava as minhas razões contra o fascismo e, até, contra a guerra colonial. Exceto, aquela maior e funda, que fazia da sua emigração pessoal - dizer não com o corpo e o tempo da vida - um ato político admirável.

Isto para vos dizer que brasileiros de Lisboa, o professor, o músico, os que me entregam pizza, o motorista do uber e a caixeira do centro comercial, em conversa que nunca desperdiço, e me falam de coisas de Goiás ou de Minas, e me deram a sensação por estes dias atrás de que votariam maioritariamente em Bolsonaro, "mudança", diziam eles - o que foi confirmado no domingo -, esses homens e mulheres terão de mim o que lhes fiz saber nas conversa precedentes: olá, gente!

Eu sei, mas eles não sabem, que no domingo passado, ontem, eles estiveram como os portugueses, num domingo de março longínquo, aplaudindo a tribuna errada. Três semanas depois, a maioria dos portugueses do estádio de Alvalade virou o bico ao prego e precisei deles nas manifestações democráticas. Os brasileiros de Lisboa vão precisar de mais tempo para perceber quem é Jair Bolsonaro.

Entretanto, terão de mim e do DN (que na noite de ontem esteve a ouvi-los e contou-os em reportagem) o respeito que é devido a quem trabalha na nossa terra. E, cá estando, é deles. Respeito que não tenho por Jair Bolsonaro. Só não sabe fazer a diferença quem olha à volta e não vê homens e mulheres, mas só etiquetas.

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