RAP e os mariconços

Urge criar um movimento para a recuperação de termos tão lindos como "escarumba", "judiaria" e "ciganagem". Sobretudo num país em que quem ande na rua - experiência que recomendo a RAP - sabe que expressões discriminatórias continuam a ser descomplexadamente utilizadas para "gozar" com pessoas concretas.

Pára tudo. Ricardo Araújo Pereira disse, em entrevista ao i, que um seu antigo sketch em que referia pessoas como "o coxo, o marreco e o mariconço" hoje "seria impossível". Saiu uma lei a proibir estas palavras? Há pessoas espancadas por proferi-las? Ameaças de morte? Não. Há, explica RAP, "um ambiente cultural".

Espera aí, mas o sketch em causa não é uma crítica a esses termos, contribuindo para a censura social e cultural do seu uso? É o seu autor, aliás justamente conhecido pelo ativismo na luta contra as discriminações, que agora se queixa de que referir assim pessoas pode ser malvisto?

Se estão confusos vão ficar mais. Porque os ambientes culturais não impedem de fazer coisas; podem é levar a pensar duas vezes. Ora RAP não acha que um sketch assim já não faz sentido; teme as consequências de más interpretações - ou seja, tem medo. De quê? Das redes sociais que, diz, "ladram". E então? Não é ele a declarar que "o mundo em que gostava de viver é aquele em que se as pessoas se sentem ofendidas por uma declaração podem ofender o autor desta"? É, mas: "Grupos de pessoas, umas organizadas e outras fruto da dinâmica das redes sociais, conseguem resultados inadmissíveis. Tenho assistido a coisas, felizmente mais no estrangeiro, que levam gente a perder o emprego." OK: RAP teme que deixem de lhe dar trabalho. É compreensível. Mas este é o homem que repete "as palavras não são atos". Dizer que alguém devia ser despedido não é despedi-lo, certo? "São só palavras." Ou afinal as palavras são ações e têm consequências, e RAP só vê isso se a palavra for usada para tentar que alguém perca o trabalho?

Por contraditória e tola que seja, porém, esta campanha de RAP está a resultar. As redes "latem" que os humoristas estão a ser perseguidos e que há quem queira "proibir" - já li "criminalizar"- certas palavras. Eh pá, urge criar um movimento para a recuperação de termos tão lindos como "escarumba", "judiaria" e "ciganagem". Sobretudo num país em que quem ande na rua - experiência que recomendo a RAP - sabe que expressões discriminatórias continuam, incluindo nas escolas onde é ídolo, a ser descomplexadamente utilizadas para "gozar" com pessoas concretas. Um país onde aquilo que tanto o apavora - o PC (politicamente correto) - nunca foi sequer entendido, quanto mais praticado.

Se há, nos países anglo-saxónicos, episódios estúpidos e preocupantes associados ao PC? Há. E devem ser denunciados e combatidos. Mas fazer de conta que se passam cá e acusar de ameaça à liberdade de expressão quem aqui pugna por um tratamento digno e igualitário, lutando contra vitimizações seculares simbolizadas em expressões criadas para ofender e humilhar, como "mariconço", serve exatamente para quê? Qualquer que seja a intenção, resulta no reforço das marcas da dominação e do bullying, em fazer "giro" e "livre" perseguir os perseguidos, massacrar os massacrados. Obrigadinha, RAP, mas para isso já tínhamos a direita trumpista.

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