Generais de Rilhafoles*

Uma das coisas mais divertidas do "caso Colégio Militar (CM)" é que, ao virem a público negar a existência de motivos para a intervenção do ministro da Defesa, todos os que o fazem reiteram a necessidade (urgência, até) da mesma. É ler o texto que Garcia Leandro, a abrir as hostilidades, escreveu no DN. Este general reformado, membro da Associação dos Antigos Alunos do CM, deu em 2013 a cara pela campanha "Querem matar o Colégio Militar" contra o então ministro da Defesa, Aguiar-Branco, por este ter tido o desplante de considerar inadmissível a segregação de género num estabelecimento de ensino do Estado e impor a entrada de raparigas. Agora, diz que "aquilo que a Constituição declara sobre comportamento sexual de qualquer cidadão não se pode aplicar de modo cego para estas idades". Fala, presume-se, da proibição da discriminação com base na orientação sexual, que crê não se aplicar a menores. Ora, sendo lícito discriminá-los, não aconteceu qualquer procedimento inconstitucional no CM ou declaração que o indicie. Houve foi "deturpação da realidade."

E o que é a realidade? No Fórum da TSF de quarta-feira, o almirante Vieira Matias, ex-chefe do Estado--Maior da Armada, explica: "Não é só uma questão de homossexualidade, a heterossexualidade tem de ser igualmente proibida [no CM]." O que seria evidente, não houvesse "uma certa falta de senso no tratamento desta questão". Inteiramente de acordo, Ricardo Durão, outro general na reserva, corre tudo a estúpido no Expresso. O fechar do Instituto de Odivelas e o abrir do CM às meninas foram "estupidamente" perpetrados por Aguiar-Branco; as afirmações do subdiretor do CM sobre a exclusão dos alunos homossexuais e a necessidade de saírem da escola são "correta e pura realidade"; os pais desses alunos, a não ser que "absolutamente insensatos", só podem concordar. E quem, como o ministro da Defesa, se oponha a que meninos homossexuais vão para a rua só pode ser tontinho. Mas o general, caridoso, quer trazê-lo à razão: "É admissível que um militar numa instalação militar se "envolva na marmelada" com um camarada ou uma camarada, dado que já existem mulheres militares. (...) Como será o futuro? Alguns passarão a desfilar de mãos dadas, em manifestação expressiva do respetivo "orgulho gay"?" E termina com o que crê cúmulo da impossibilidade e do ridículo: "Deve achar, por certo, que é constitucional ou legal que um militar contraia casamento com outro do mesmo sexo (por exemplo: um general casar com um cabo)."

Não admira, de facto, ver a pobre Associação 25 de Abril, que suspeita de "razões escondidas" do Observador "para provocar as declarações do subdiretor", a acusar o ministro de "não perceber nada da psicologia dos militares" e apelando à sua substituição. Azeredo Lopes é jurista; para lidar com problemas destes é necessária outra especialidade.

* O Real Colégio Militar teve sede no Convento de Rilhafoles, depois asilo de alienados.

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