E se ser homossexual fosse indiferente

Adolfo Mesquita Nunes é vice presidente de um partido que se opôs a todas as alterações legais que visaram acabar com as discriminações contra os homossexuais e tem entre os dirigentes um psicólogo que clama que a homossexualidade é uma doença. Quem diz que o seu coming out é inócuo só pode estar a gozar.

A primeira vez que alguém me fez uma pergunta direta sobre a minha orientação sexual foi numa reportagem sobre a exclusão dos homossexuais das forças armadas americanas. Um dos meus entrevistados disse algo que me fez perceber que partia do princípio de que eu era lésbica. "Por que acha isso?", perguntei. Respondeu-me, perplexo: "Por que outro motivo estaria a fazer este trabalho?"

Essa reportagem, em 1993, foi o meu primeiro contacto com o ativismo homossexual e com o paradoxo de uma espécie de apartheidização voluntária, em espelho, consubstanciada em secções de livrarias com "gay and lesbian studies" (estudos gays e lésbicos), e em associações de gays de várias profissões, dos militares - o tema da minha reportagem - aos taxistas, passando por pilotos e sei lá mais o quê. Um grupo discriminado que para se afirmar cria uma identidade aglutinadora, uma ideia de comunidade unida pela necessidade de visibilidade e de voz, fazendo de algo tão íntimo como a orientação sexual um facto público, um estandarte, um orgulho - em oposição e desafio ao preconceito, à discriminação, à perseguição e ao silenciamento.

Para mim, vinda de um país onde praticamente não se conheciam grupos de defesa dos direitos dos homossexuais - o primeiro a surgir foi no contexto do PSR (partido que mais tarde, em 1999, se fundiria no BE) com o nome Grupo de Trabalho Homossexual, em 1991 - e, sobretudo, os poucos que existiam não tinham eco mediático, a reportagem foi uma espécie de workshop sobre questões que nunca me tinha colocado, apesar do meu interesse pelo assunto. E a primeira vez que me confrontei com os dilemas profundos da noção de coming out e, antes disso, da de "identidade homossexual".

Afirmar a "diferença" para chegar à indiferença que advém da igualdade plena: o paradoxo continua a fazer curto-circuitos em muitas cabeças, incluindo algumas com obrigações acrescidas de lucidez, como António Guerreiro, que no Público de sexta escreveu sobre o coming out do vice-presidente do CDS/PP Adolfo Mesquita Nunes em tom derrisório, dizendo que este "deixou que dele fizessem um cromo do ideal kitsch", que "não assumiu nada porque também não há nada para dissimular, não mostrou nada porque não há nada para mostrar". Percebo muito bem o que Guerreiro, cuja inteligência admiro e com quem estou amiúde de acordo, diz: não há nada para assumir, nada para mostrar, nada para ver; ser homem e gostar sexualmente de homens, ser mulher e gostar sexualmente de mulheres deveria ser, ter sido sempre um não assunto, algo de indiferente, tão indiferente como (e tanto haveria a dizer sobre isto) ser homem e gostar sexualmente de mulheres e ser mulher e gostar sexualmente de homens - e todas as variações possíveis. É assim para mim, será assim para Guerreiro; deveria ser assim para toda a gente. Sucede que eu e ele não somos padrão de nada, e ridículo e mesmo kitsch - o kitsch da afirmação estridente de uma superioridade intelectual que se enoja com a mundanidade, em caricatura de sofisticação esforçada, de muito-à-frentismo -- é alguém fazer questão em verberar assim uma afirmação cuja utilidade e impacto não são contestáveis no mundo real. Porque talvez já não suceda (não sucederá?) em Portugal miúdas e miúdos serem espancados por ser "fufas" ou "maricas" pelos marialvas da terra, como sucedeu com um amigo meu de adolescência na minha terra natal, Vila Franca de Xira, nos anos 80. Mas acabaram os insultos, as graçolas, o medo, a vergonha, as mães e pais que acham que os filhos têm de ir ao médico se suspeitam de homossexualidade? Acabaram os discursos públicos supostamente "científicos" ou "clínicos" sobre a homossexualidade ser uma "anormalidade" e uma "aberração"? Acabou o auto-ódio e o sofrimento de quem se sente "errado" porque é isso que lhe dizem ser?

Adolfo Mesquita Nunes é vice presidente de um partido que votou sempre contra - à exceção da inclusão da proibição da discriminação com base na orientação sexual no artigo 13º da Constituição, em 2004 -- todas as alterações legais que visaram acabar com as discriminações contra os homossexuais. Um partido que pela voz de Telmo Correia, no debate sobre a coadoção por casais do mesmo sexo, falou de "ofensa ao Criador" e cuja líder, apesar de defender o casamento das pessoas do mesmo sexo, votou contra como deputada invocando a posição do partido; um partido que tem entre os dirigentes um psicólogo que clama que a homossexualidade é uma doença. Não há nada de irrelevante e muito menos de inútil naquilo que o Adolfo fez, e se fazê-lo agora é mais fácil que há 10 ou 20 anos - certamente - não faz qualquer sentido achar que já não vale a pena. É certo que o Adolfo não é o primeiro político, enquanto político, com projeção a fazê-lo - a primeira foi Graça Fonseca, secretária de Estado da Modernização Administrativa, em agosto, em entrevista ao DN (curiosamente muito atacada por tantos que agora elogiam Adolfo) - mas, caramba, é só o segundo. E é o primeiro num partido de direita - da direita cuja afirmação política e identitária sempre passou, em grande parte, e continua a passar pelo conservadorismo e opressão nos costumes. É para rir achar que o gesto do Adolfo, como o da Graça, é inócuo. É aliás mesmo estúpido.

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