A utilidade de Bruno de Carvalho

"Por quem és?" "De que clube?" "Quem estás a defender?" O caso Bruno de Carvalho é só uma lente de aumentar da lógica de claque que triunfa no debate público.

Bruno de Carvalho permitiu-me uma experiência exemplar ao longo das últimas semanas. Ao escrever sobre o ainda presidente do Sporting no Twitter, fui sucessivamente acusada e insultada e festejada e aplaudida pela mesma claque, consoante me liam como apoiante ou inimiga. Tão depressa fui acusada de ser "lampiã" e contraditada com apreciações primorosas sobre o que concluíam ser o presidente do meu clube (Luís Filipe Vieira) como incensada por sportinguistas, e até acolhida como uma das suas, devido a uma série de tuites em que contextualizava a violência de Alcochete como um problema do meio futebolístico e portanto não exclusiva do Sporting e do consulado de Bruno de Carvalho.

Não me sendo conhecida publicamente qualquer filiação clubística, a primeira preocupação das pessoas perante o que eu ia dizendo era atribuir-me um lado. Estás por quem?, perguntaram-me várias vezes. Como se fosse impossível ler-me e dialogar comigo sem perceber primeiro como me situar e portanto como me ler - mais concretamente, que discurso imprimir ao meu.

É claro que este modus operandi, esta forma de ler o outro, está longe de se ater ao mundo do futebol; é apenas muito mais evidente neste caso porque não tendo qualquer simpatia clubística, e portanto não podendo suspeitar das minhas próprias motivações e partis pris - coisa que me pode suceder, e frequentemente sucede, noutras matérias - a observação é muito mais distanciada e as dinâmicas e perversidades das reações muito mais transparentes. E o que se vê claramente assim é a capacidade deslumbrante que se tem, mesmo no caso de textos tão curtos e portanto, em princípio, prestando-se a tão pouca confusão como os do Twitter, de imputar a um discurso motivações e afirmações que não só não estão lá como, muitas vezes, são o exato contrário do que está. Essa capacidade, que pode dever-se a muita coisa, inclusive iliteracia (uma forma de analfabetismo interpretativo muito mais comum do que se supõe e cuja forma mais extrema as caixas de comentários dos jornais evidenciam) é particularmente perversa quando a descodificação da mensagem de um discurso é determinada pelo recetor a partir da ideia que formou sobre o emissor. Numa atualização da famosa frase de Marshall McLuhan - "o meio é a mensagem" - o emissor torna-se assim a mensagem. Antes de sequer tentar perceber o que alguém está a dizer, já decidimos o que disse e se estamos a favor ou contra.

O que ocorreu no caso dos meus tuites a propósito de Bruno de Carvalho e do caso Alcochete é uma decorrência deste mecanismo perverso: ao ler-me, as pessoas enfeudadas a clubes queriam perceber primeiro quem eu era no seu sistema de valores para poderem interpretar o que eu estava a dizer à luz desse "prós e contras" e saber como lhe reagir. Esta forma de incomunicação é, naturalmente, velha como a linguagem e as relações humanas - nunca saímos de nós e da nossa perspetiva e decorrentemente só conseguimos interpretar os outros a partir quer da nossa própria experiência e referências quer do nosso posicionamento e daquele que lhes atribuímos --, mas tem graus. E o grau a que se assiste no mundo extremamente tribalizado do futebol, no qual não parece haver lugar a posicionamentos exteriores à lógica "és por nós ou contra nós", ilumina o perigo de que esse tipo de leitura fanática da realidade se universalize.

O perigo é ainda maior porque a visibilidade crescente que esta doença tem graças às redes sociais, nas quais aquilo que antes eram conversas de café ganhou foro de "o que as pessoas pensam", pode levar-nos a assumir que esta é a lógica triunfante e portanto inelutável. Que, resumindo, não há forma de elevar o debate e que as pessoas querem é "sangue", insultos, confronto de "lados". Que refletir e contextualizar e procurar um ponto de observação racional a partir da apreciação de factos não faz doravante sentido, porque "não tem público". Que devemos conformar-nos com uma sociedade dividida em fações e com um debate em que a calúnia e a ordinarice são normais e aceitáveis e o incitamento ao ódio perfeitamente normal, e na qual isso a que se chama "verdade" deixou de ser relevante.

Sabermos que essa lógica triunfou nas últimas presidenciais americanas devia ter-nos, como comunidade, feito refletir seriamente sobre. Mas não é decerto isso que está a suceder. Não seria infelizmente necessário recorrer à análise do caso de Bruno de Carvalho e da crise no Sporting para perceber que a linguagem truculenta, insultuosa e rasca do debate futebolístico está a ganhar cada vez mais adeptos nos protagonistas dos media. Que há colunistas que se especializaram em criar e acicatar fações, apelando a autos da fé e decretando, como no exemplo que dei do Twitter no início deste texto, que os discursos devem ser interpretados não em função do que é dito mas de quem diz e portanto dos seus alegados objetivos, numa atribuição de intuitos venais que desde logo o desqualificam. Que na própria cobertura noticiosa os discursos de ódio, a perspetiva despudoradamente persecutória e portanto a ausência absoluta de jornalismo e de procura da verdade triunfam (basta ver que produtos têm mais audiências). Lamento muito, mas Bruno de Carvalho e as paixões e perversões que suscita são só uma lente de aumentar daquilo que nos está a acontecer - assim nos servisse para alguma coisa.

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