A fabulosa fábula de Milo, o campeão do "direito a ofender"

Foi banido do Twitter em julho de 2016 por incitar ataques racistas a uma atriz negra; perguntou se seria melhor ter uma filha feminista ou com cancro e defendeu que as mulheres deviam sair da internet se não aguentam assédio e sexismo; numa palestra numa universidade, projetou a foto de uma estudante transexual que tinha feito queixa por não poder frequentar as casas de banho das raparigas e ridicularizou-a, dizendo que não tinha conseguido transformar-se numa mulher, porque, sendo ele homossexual, ainda o excitava.

São alguns exemplos daquilo que fez do britânico de origem grega Milo Yiannopoulos, editor do site de extrema-direita Breitbart e apoiante de Trump (a quem chama "daddy", "papá"), a estrela pop do movimento alt-right e o campeão do movimento "direito a ofender", também conhecido como "movimento antipoliticamente correto". A ideia fundamental deste movimento é que a rejeição do discurso de ódio é um atentado à liberdade de expressão. Que se as pessoas querem dizer coisas ofensivas - o que no caso significa, como veremos, racistas, sexistas e homofóbicas - devem poder dizê-lo sem serem banidas ou processadas por isso; que dizer coisas não é o mesmo que fazê-las ou que "palavras não são ações". Que, por exemplo, defender que todas as mulheres devem ser violadas não é o mesmo que violá-las; o mesmo vale para dizer que os negros deviam ter permanecido escravos ou que os homossexuais deviam ser capados.

A ideia é que o esforço de proteger grupos historicamente discriminados e perseguidos do discurso ofensivo e violento não faz sentido quando essas pessoas têm, legalmente, os mesmos direitos que as outras, e portanto estarão já em posição de igualdade face a quem as ofende. Tudo deveria pois resolver-se a nível do discurso: tu ofendes-me, eu ofendo-te de volta. Esta perspetiva implica que o Twitter nunca deveria ter banido Milo por incitar ataques racistas à atriz negra, porque ao fazê-lo está a dizer que ela não sabe defender-se e a "censurar" Milo. Mas este movimento vai mais longe: na verdade, paradoxalmente, apelida de "censura" o discurso que o combate e apelos a boicote. Isso mesmo sucedeu em janeiro quando se soube que Milo tinha um contrato milionário com uma editora e houve quem defendesse que não se comprasse nada com essa chancela.

Há algo de cómico num movimento que passa a vida a acusar os outros - aqueles que ataca - de se vitimizarem e faz exatamente isso de cada vez que é atacado. Mas estávamos nisto quando, no fim de fevereiro, na altura em que se anunciava a participação de Milo, como orador, na conferência anual da União Conservadora Norte--Americana, começou a correr nas redes um vídeo do britânico dizendo que, por vezes, sexo entre um rapaz de 13 e alguém de 25 pode ser desejado - e portanto consentido - pelo menor, "porque as pessoas são complicadas, especialmente no mundo homossexual". E Milo invoca o seu exemplo, dizendo que teve, nessa idade, relações sexuais com um padre. Com mais de um ano, o vídeo foi repescado por uma adolescente canadiana cujo nome não foi revelado e que, sendo simpatizante do movimento conservador, considera que Milo e quejandos são um perigo. Difundido como uma defesa da pedofilia, o excerto levou à retirada do convite para a conferência, ao cancelamento do contrato do livro e, até, à saída de Milo do Breitbart. Parece que de súbito a liberdade de expressão deixou de ser um direito fundamental - e ninguém está a gritar censura. Às tantas, afinal, as palavras não são só palavras. Só se escolhe vê-las como tal quando são usadas para perseguir e insultar aqueles que achamos que devem ser perseguidos e insultados.

Mas o melhor de tudo é que Milo Yiannopoulos, que no vídeo em causa negava defender a pedofilia e explicava, corretamente, que esta consiste em atração sexual por corpos impúberes, tem toda a razão: ele não defendeu a pedofilia naquele vídeo e limitou-se a, como se habituou a fazer para delírio da sua base de apoio, dizer algo que pudesse chocar os "politicamente corretos". E acabou "boicotado" e "banido" pelos seus. Ah, a ironia.

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