Preconceito e utopia

Para quem escreve opinião com alguma regularidade é impossível escapar ao tema mais candente da nossa atualidade, pela dimensão da tragédia que o provocou. No entanto, a minha intuição leva-me a não me pronunciar sobre as causas e as consequências da tragédia que atingiu tantas famílias.

Por uma razão simples: porque não sei o suficiente para opinar.

Mas sei que o debate está inquinado por preconceitos e interesses de vária índole. Como aconteceu com o trágico acidente de Camarate que vitimou Francisco Sá Carneiro e os seus companheiros de viagem; reparem, escrevi "acidente", foi assim que concluíram as autoridades judiciais, mas já isso é controverso, pois outros - incluindo as comissões parlamentares de inquérito - dizem "atentado".

Logo na noite de 4 de dezembro de 1980, estava eu nos estúdios da RTP e já os comentadores se dividiam entre os adeptos do acidente e os do atentado. Trinta e seis anos depois, após inúmeros inquéritos que incluíram peritos qualificados estrangeiros, as crenças venceram as análises frias e objetivas. Cada um ficou com a sua!

Na queda da ponte de Entre-os-Rios, o Ministério Público acusou criminalmente seis pessoas, responsabilizando-as pela tragédia; cinco anos depois, após um julgamento que durou seis meses, o tribunal absolveu todos os acusados, com um acórdão de notável objetividade e com severas críticas ao Ministério Público.

O processo judicial fez mais vítimas: os acusados que estavam inocentes e os familiares dos que morreram, frustrados pelo desfecho do processo.

Perante o terrível incêndio que fez mais vítimas do que a queda da ponte, muitas das opiniões que se ouve e lê têm o mesmo padrão preconceituoso. O Ministério Público investiga à procura de crimes e nas redes sociais já se identificaram responsáveis, com a mesma irresponsabilidade com que Passos Coelho imputou ao governo falhas no acompanhamento psicológico das vítimas que já teriam provocado suicídio. A tentativa de encontrar responsabilidade criminal tem, desde logo, um efeito perverso: todos os que, direta ou indiretamente, poderão ter alguma influência no que sucedeu entram em manobras defensivas, em vez de relatarem o que sabem com objetividade e sem receio das consequências.

Os partidos políticos farão o previsível: encontrarão facilmente omissões e erros cometidos pelos outros e justificarão as medidas que eles próprios tomaram.

E fora da política muitas opiniões têm marca ideológica ou de interesse: a indústria que utiliza a matéria-prima responsável pelo incêndio diz que é a maior protetora da floresta, porque cuida dela. Naturalmente, têm opinião oposta os que sempre foram contra o eucalipto e o pinheiro-bravo.

Os que veem com hostilidade as parcerias público-privadas e a prestação de serviços de interesse público por privados encontrarão argumentos em eventuais falhas do SIRESP.

Um ponto em que os que intervêm no combate aos incêndios vão estar de acordo: todos têm falta de meios e encontram na tragédia um argumento decisivo para as suas reivindicações: polícias, Ministério Público, bombeiros, Proteção Civil, planeamento do território, administração florestal, todos precisam de mais meios, logo, outros culpados, o ministro das Finanças e os contribuintes.

Neste contexto, será uma utopia pensar que se chegará a algum consenso quanto às causas remotas e próximas do incêndio e quanto ao modo como ele foi combatido.

O horrível sofrimento causado às vítimas deveria inspirar-nos dor, respeito, pudor e solidariedade. E muita serenidade no apuramento do que aconteceu e porque aconteceu.

A melhor sugestão que vi para o apuramento dos factos li-a num artigo de Miguel Sousa Tavares no último Expresso: "Pena que não tenhamos, como os ingleses, a tradição de nomear uma pessoa consensual, respeitada, para, podendo dispor de todos os meios necessários e ter acesso a tudo o que requerer, dirigir uma comissão de inquérito que, num prazo adequado e improrrogável, apresentasse conclusões e recomendações..."

Ou seja, um método pragmático, sem formalismos estéreis.

Claro que as polémicas continuariam, mas, pelo menos, teríamos um rosto a assumir a responsabilidade do resultado.

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