Militantes e eleitores

Entre os meus amigos há sportinguistas, benfiquistas e até portistas que são pessoas inteligentes, cultas e sensatas, mas quando se fala de futebol transfiguram-se em fanáticos dos seus clubes; já vi benfiquistas torcerem pelas equipas estrangeiras quando defrontam o Sporting em competições internacionais e, claro, vice-versa. São incapazes de pôr o futebol português à frente da sua paixão clubística.

O que se passa nos partidos políticos não anda longe desse mundo do futebol, como o ilustra o clima que se vive no PSD, em que a corrente contestatária ao atual líder coloca a luta partidária bem acima dos interesses dos portugueses. Para essa corrente, qualquer diálogo com o PS constitui uma traição, a começar por não afirmar desde já que votará contra um orçamento de que nada se conhece.

O erro desta perspetiva é confundir os militantes com os eleitores.

No universo dos eleitores do centro, que ora votam no PSD ora votam no PS, as paixões clubístico-partidárias contarão muito pouco. O que conta é a avaliação que em cada momento eleitoral fazem do mérito dos candidatos a primeiro-ministro e das expectativas que atribuem aos candidatos. O que esperam dos líderes desses partidos é que estejam dispostos a colaborar na resolução dos problemas que os preocupam e não que se envolvam em ataques pessoais ou em guerras partidárias que em nada contribuem para essa solução. Por isso parece-me que Rui Rio foi inteligente na mensagem que passou, ao invocar a necessidade de consensos em temas que preocupam todos os portugueses, de que são exemplos os temas da primeira conversa com António Costa, em especial a sustentabilidade da Segurança Social, que obviamente preocupa os mais velhos que vivem das suas reformas e os mais jovens que têm de suportá-las para poderem aspirar a elas.

E é claro para toda a gente que pensa com independência que há bloqueamentos na relação entre o Estado e os cidadãos que só poderão ultrapassar-se se houver disponibilidade dos dois partidos em cooperar.

O nosso relacionamento com a Europa e o mundo, as reformas nos sistemas de Saúde, na Educação, na Justiça, na fiscalidade, o investimento nas infraestruturas, são temas que precisam de que os dois partidos tenham entendimentos mínimos que permitam políticas de médio prazo. Isto, claro, mantendo cada um deles as matrizes ideológicas que os caracteriza.

Parece-me também, na mesma linha de raciocínio, que podem enganar-se os que vaticinam o fracasso de Rui Rio nos próximos confrontos eleitorais. É certo que a situação económica do país e até as finanças do Estado apresentam claras melhorias neste ciclo, com o maior crescimento económico desde o ano de 2000, diminuição do desemprego, melhor desempenho das exportações e até alguns sinais positivos no investimento público e privado. E esta performance económica com as contas públicas a tender para o equilíbrio.

Mas são também evidentes as fragilidades da atual solução governativa, que se agravarão no futuro próximo, pela impaciência com que os partidos da esquerda assistem ao reforço do PS junto do eleitorado do centro, fragilizando a relevância do seu apoio ao governo. Por outro lado, nada garante a sustentabilidade do atual e favorável contexto económico que permitiu o otimismo que estamos a navegar. Por muito hábil que seja António Costa, o equilíbrio entre o seu pragmatismo e as ideologias antissistema dos seus parceiros é cada vez mais difícil e periclitante.

O PSD estava sem mensagem de esperança e colado a um período que todos queremos esquecer. Rui Rio pode não gozar de um estado de graça no seu partido, mas tem condições para renovar a ligação do PSD aos portugueses e recuperar os eleitores que o abandonaram.

E mostrou uma qualidade que começa a ser rara na classe política: a coragem de dizer o que muitos pensam mas não se atrevem a dizer.

O seu discurso foi, nesse aspeto, inovador. É com coragem e determinação que se afirma uma liderança.

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