Podemos salvar o cinema, os media ​​​​​​​e o audiovisual?

Sou amigo do Nuno Artur Silva há alguns anos. A sua nomeação para o Governo é um momento feliz porque é raro podermos contar com a competência máxima no lugar certo.

O Nuno Artur vai arriscar tudo num trabalho ciclópico: reerguer o Cinema, o Audiovisual e os Media.

Comecemos pelo cinema português, que representa 4 por cento nas vendas de bilhetes em sala em Portugal, contra quase 60% em França e 40% em Espanha - números apresentados pela NOS Audiovisuais em 2018. Ou seja, o cinema português está quase sempre perto do zero. Não há uma indústria, não há escala, nada tem continuidade. Vive-se na total precariedade e de mão estendida face aos escassos públicos que existem - Instituto do Cinema e Audiovisual (ICA) e RTP. Que têm tostões face a um setor exaurido e sempre na (real) falência.

No audiovisual é igual: a RTP não chega para suportar um setor inteiro. A SIC e TVI dedicam o essencial do seu dinheiro às equipas internas para produzir muitas horas a baixo custo (nos canais cabo isto representa quase o orçamento total). As áreas de outsourcing nas televisões privadas estão limitadas aos programas de estúdio da manhã e a da tarde, às novelas e reality shows. Sobra quase nada para filmes portugueses, documentários ou magazines. E afetam algum dinheiro à compra de conteúdos estrangeiros, que chegam a Portugal com custos muito mais baixos que os produzidos por cá (porque fazem receita no mercado internacional, sobretudo os anglo-saxónicos).

Quem já foi a feiras de conteúdos pelo mundo sabe quão utópico é vender conteúdos falados em português - à exceção de novelas (a baixíssimo preço por episódio).

Simultaneamente, toda a gente anda à espera há muito que seja aplicada em Portugal uma nova diretiva europeia que obriga, finalmente, a que os canais estrangeiros difundidos em Portugal garantam alguma quota mínima de produção nacional... Porque sem memória e história não há um coletivo nacional de ideias e valores, não há, em certo sentido, uma pátria. Qualquer dia as novas gerações conhecem melhor a história da Revolução Americana do que 1 de Dezembro de 1640. E por aí fora.

Nos média nem é preciso dizer nada sobre a crise total. Os jornais fecham (por todo o mundo) ou tornam-se mortos-vivos: quase sem gente nas redações, sem pensamento, esmagados pelos média acéfalos devoradores da atenção (sobretudo redes sociais), deixando os media (mesmo os grandes) de mão estendida a todos os favores diretos ou tácitos às grandes corporações que aparecem para comprar publicidade ou mesmo o capital. Entretanto, é preciso encontrar capacidade de remuneração para os conteúdos digitais.

Por fim, a música portuguesa, que parece melhor que os outros mas, na verdade, quando a escala é Lilliput, até um anão é gigante.

Uma simples radiografia como esta mostra o quão atrasados nós estamos nestas áreas. Se isto não precisa de uma ação urgente que defenda a cultura e democracia, então não sei para que serve o Estado.

Só o Governo pode organizar o sector, descobrir alguns apoios europeus mais transversais, diminuir a precariedade nos vínculos laborais e garantir o futuro da língua. Esta é a grande esperança (talvez excessiva) que os sectores de conteúdos depositam no novo secretário de Estado.

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