Matarruanos das serras impedem o Glorioso Progresso de Portugal

O Álvaro. E agora o Galamba. Milhões de anos de geologia paisagem e história humana nas mãos de dois iluminados do progresso. Peito feito rumo ao futuro, deixando antecipar um rasto de destruição inexorável por séculos. Porquê?

Comecemos pelo célebre Natal de 2012 em que o então ministro da Economia entrega mais de cem autorizações para prospeção e exploração de minas em Portugal. Álvaro Santos Pereira, recém-chegado do Canadá, aterrou por meses em Portugal e pensou que nos ia dotar com o desenvolvimento mineiro. É sempre assim: em alturas de desespero (Troika) tudo é uma saída da crise e não há reação - aliás, não há nenhuma capacidade dos principais responsáveis de média em Portugal em perceberem o que se passa enquanto estamos a falar de decretos ou regulamentos. Mesmo sendo evidente que turismo e esburacar o país numa dimensão colossal sejam impossíveis de compatibilizar num território da dimensão do nosso.

Na gigantesca dimensão do Canadá talvez a exploração mineira se note menos nos ecossistemas. No Chile ou Bolívia, a extração de lítio usa técnicas idênticas à da extração de sal (ninguém em Portugal está ambientalmente contra as salinas). Na colossal dimensão da China, fábricas de transformação de lítio são altamente poluidoras mas estão afastadas das populações (e quando não estão, estas não têm voz).

Portugal é outra coisa... ou talvez não.

João Galamba entrou nisto pelo lado errado e parece incorporar o chip desenvolvimentista de Sócrates, parte II. É pura e simplesmente ridículo atirar a expressão "interesse nacional" para cima de gente sempre ignorada, nos confins do "Portugal de que ninguém quer saber". Eles nunca foram o "interesse nacional" de ninguém, como se sabe - o interior não tem tribunais, hospitais, correios, as pessoas têm de pagar portagens e alojamentos para irem ao médico ou estudar nos grandes centros, etc.. E agora levam com a destruição das suas casas e dos ecossistemas que protegem em nome do "interesse de Portugal". Amavelmente, please! É impossível entrar pior num tema tão delicado.

Aliás, totalmente incapaz de compreender o que tem na frente, o secretário de Estado da Energia agitou-se no Prós e Contras da RTP de segunda-feira para sublinhar que "ninguém" sairia de suas casas por causa das explorações.

É o cúmulo não perceber o que isto significa.

O representante dos cidadãos de Boticas alertava para a impossibilidade de se continuar a viver nas freguesias que se situarão ao lado de crateras com centenas de metros, ruídos e escorrências. Não há dúvida de que se trata do fim daquele modo de subsistência baseado na agricultura e no gado autóctone de pastagem extensiva. Galamba tentava, no entanto, pressuroso, afirmar que ninguém os ia obrigar a sair das casas, que estivessem descansados! Não percebendo que eles pura e simplesmente não podem continuar a viver ali.

Fica uma dúvida: será que o secretário de Estado percebe mas, na verdade, acha que a LusoRecursos e as outras empresas se vão embora caso tenham de realojar dezenas de pessoas em cada freguesia?

O lítio. A gigantesca quantidade de resíduos para o retirar das rochas em que ele está misturado deveria levar-nos a refletir o que significa reduzirmos todas estas populações e terras a entulho. Estamos a falar de Montalegre, Boticas, Serra de Arga (Caminha), da envolvente da Serra da Estrela (Guarda), todos territórios colados ou fazerem parte de paisagens protegidas, muito deles com nascentes de rios e albufeiras cruciais para o abastecimento humano (por exemplo, o Alto do Rabagão, no Gerês).

É aqui que o discurso nunca bate certo: sim, politicamente há um empenho nas alterações climáticas. Mas depois o Governo confunde, ou não compreende, que antes da mobilidade elétrica (lítio) está o mais precioso dos recursos - a água. E a seguir a esta a manutenção da biodiversidade; e só depois as alternativas energéticas. Mais: Portugal deve fazer parte dessas alternativas rumo à sustentabilidade, mas com um recurso não-predatório. Estando a ciência na antecâmara da descoberta, por exemplo, do potencial do eletrólise a partir da água do mar, teremos aí um papel óbvio e renovável para produzir energia. Mar é nosso e inesgotável. Vamos a correr escavacar ainda mais o país para entrar na corrida do lítio?

O custo de extração do lítio português é elevadíssimo, dada a dificuldade de o arrancar da massa mineral em que está incrustado. Gera-se no processo um astronómico consumo de água, impossível de descontaminar dada a escala épica de que estamos a falar. Só países acéfalos arruínam a sua água pura para separar minérios. É o cúmulo do terceiro-mundismo. Mas como a água das serras é grátis, o negócio vai para a frente...

Visto de Lisboa, não se passa quase nada. Em quantos mais meios de comunicação vai Galamba apregoar a sua verdade - por oposição aos cidadãos que pagam do seu bolso as deslocações e a disponibilidade para defenderem em todo o lado as suas casas, as suas terras e animais? Onde está um contraditório equilibrado nos média? Os guardiões da natureza e da economia agrícola/silvestre, que dão de comer às cidades, precisam de expressar mais vezes o seu contraditório.

Caso contrário, para o Álvaro, que concessionou minas a torto e a direito, e para Galamba, que quer ficar na história como o homem do "petróleo branco", o lítio é uma medalha na lapela.

Lembrete: os negócios das minas acabam quase sempre com empresas-fantasma, falidas, e um lastro de terras esventradas que o dinheiro público passa anos a remediar. O triunfo dos porcos é, neste caso, o dos advogados certos, o dos contratos irrevogáveis e os eternos direitos adquiridos. Responsabilidade de quem? Dos ingénuos que de tempos a tempos ocupam estas pastas estratégicas no Estado.

Não sei se os criadores da expressão cavaquista "petróleo verde" estão arrependidos da mancha de eucalipto que ajudaram a expandir. Hoje temos um desespero absoluto na gestão da floresta. Tal como no lítio, foi exatamente este o ponto: uma atividade predatória (uma árvore australiana, exótica, fora do seu ambiente natural) tinha o potencial de gerar milhões em negócios de exportação, criar milhares de empregos, etc.. Era progresso indiscutível. Depois... destruiu a paisagem, os ecossistemas, perdemos centenas de vidas e gastamos milhões do erário público na proteção civil para gerir os fogos incontroláveis.

Se não aprender nada com a História, António Costa e o seu governo vão pelo mesmo caminho no processo do lítio. Não há Sol na eira e chuva no nabal. Não há. O problema é que esta é apenas uma frase agrícola e nenhum dos políticos no ativo cultiva nabos.

Tento outra frase, em homenagem a Sophia: "Um progresso que sacrifica a Beleza é um progresso contra o Homem. Porque a Beleza é o acordo do Homem consigo próprio". Portugal podia ser a Beleza.

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