Sim, chegou outra vez a hora dos "especialistas de aeroportos". Eu incluído, desde os dossiers da Ota e das absurdas justificações de Mário Lino, o senhor ministro do "jamais" (en français, s"il vous plaît)..Sim, há uma espécie de maldição sobre a escolha de um novo aeroporto para Lisboa. Mas estas discussões públicas valem a pena porque só há um território - e estas decisões são irreversíveis por muitas décadas..Mais: não há decisões sem consequências, embora umas sejam muito pior que outras. Passados quase 10 anos, já não nos lembramos como chegamos aqui. Mas valeu a pena. Porquê?.1. Aumentar a Portela.Uma questão prévia: porque não consegue a Portela crescer mais? O crescimento urbano impediu que haja, pelo menos, duas pistas a funcionar em simultâneo. Sem isso os aviões já partem atrasados ou andam às voltas porque precisam de disponibilidade para aterrarem. Lisboa é conhecido como um aeroporto-problema. Os muito recorrentes atrasos da TAP (e das ouras companhias) começam ali..Por essa razão - e dado que a Portela já atingiu os 30 milhões de passageiros -, é essencial contar com uma nova infraestrutura que absorva o crescimento low-cost, até porque permitirá mais companhias e frequências a aterrar na capital portuguesa..2. E Alcochete/Rio Frio?.Risquemos do mapa definitivamente o gigantesco investimento num novo aeroporto - Alcochete (herdeiro do outro projeto sempre falado, Rio Frio). As consequências ambientais da construção de uma estrutura destas seriam gigantescas nesta área-tampão de biodiversidade junto a Lisboa, com o acréscimo de ter no seu solo o maior lençol freático de água da Península Ibérica..Qual o valor da água limpa no futuro? Qualquer pessoa com bom-senso, no contexto das alterações climáticas, considerará este bem como intocável. Além disso, o investimento para construir de raiz um novo aeroporto na Margem Sul seria colossal, com a fatura a repercutir-se (ainda mais...) na competitividade das taxas aeroportuárias portuguesas..Mas, sim, algo tem de ser feito porque o país tem a ganhar com o crescimento do tráfego aéreo de Lisboa. Além disso, nesta fase, a permanência do aeroporto na Portela tem sido um enorme trunfo para o turismo de estadias curtas ou para instalação de negócios com caráter internacional, dada a proximidade ao centro da cidade..3. Montijo, área de avifauna europeia.Que alternativas então? O Governo avançou com Montijo apesar de afirmar que, se o estudo de impacto ambiental o chumbasse, avaliaria novas possibilidades..Veremos o que diz em definitivo o estudo e o que conclui o Governo (mais os partidos da esquerda que o apoiam). Mas sabemos que, sendo o estuário do Tejo um dos 10 locais mais importantes da Europa em biodiversidade, a instalação de uma pista comercial não só é péssima para as aves como constitui um risco acrescido para os aviões..4. Alverca não?.E é aqui que entra Alverca, uma outra versão do Portela+1. Quais as vantagens e desvantagens de Alverca? A desvantagem é a sobreposição do corredor aéreo entre Portela e Alverca - separados por 18 quilómetros de estrada - mas praticamente em linha reta enquanto via aérea de aterragem..Alguns pilotos contestaram esta solução mas, de todos os obstáculos à instalação de aeroportos em Lisboa, este parece ser o problema mais gerível através da redefinição dos corredores e prioridades no tráfego aéreo. É como se Alverca fosse um desdobramento do mesmo aeroporto, duplicando tempo de frequências de aterragens..Nicolau Santos escreveu no Expresso, em 2017, os seguintes dados baseados nos estudos na altura disponíveis: Portela+Alverca tornaria possível 75 voos/hora e 70 milhões de passageiros ano..Alverca representa também a melhor proximidade possível a Lisboa (apenas 18 quilómetros de distância) e a estrutura tem já um caminho-de-ferro a poucos minutos da pista. Como está junto ao Tejo, seria até viável acrescentar um módulo de transporte fluvial para Lisboa com estações na Expo, Terreiro do Paço, Montijo, Barreiro, etc....Em simultâneo, o "hub" aeroportuário entre Lisboa e Alverca é na prática o mesmo e, portanto, não seria absurdo deslocar para lá não apenas as low-cost mas também as operações de carga..5. Os ambientalistas/o progresso.Há um anátema em Portugal contra os ambientalistas. Basta alertarem para soluções equilibradas (ou para o absurdo de algumas propostas que arrasam o território) e logo surgem os "pragmáticos" ou os "desenvolvimentistas" fanaticamente contra, mesmo sem perceberem a essência dos argumentos. Podemos ter turismo num país com cada vez menos natureza, equilíbrio nos ecossistemas ou paisagem?.Vamos dar de barato que quem se manifesta contra o aeroporto na Margem Sul o faz por romantismo ambiental inconsequente (num mundo "Trumps", só contam os negócios e o dia de hoje)..Vejamos: uma fortíssima razão para se optar por Alverca é porque se poupa muito dinheiro, tempo e, não sendo a solução perfeita, acaba por funcionar como a segunda pista que a Portela não consegue construir. Acrescenta pelo menos 100 por cento de capacidade a Lisboa..E, para quem não se lembra, a Ota não foi abandonada por razões ambientais mas por questões de eficiência económica e de navegação aérea: a construção de todo um complexo aeroportuário em zona leito de cheia do Tejo tinha custos e riscos astronómicos; e o aeroporto seria circundado a norte e oeste pela serra de Montejunto, o que não podia ser pior para descolagens e aterragens em determinados regimes de ventos....6. Simples?.Assim sendo, a opção por Alverca significaria uma solução mais barata na construção da aerogare e em toda a logística subsequente - desde logo porque há a ferrovia (linha Azambuja-Lisboa, o que garante menor pegada ambiental para movimentar passageiros); menos impacto na biodiversidade; rápida implementação..O que impede Alverca? Em Portugal, por vezes, o mais difícil é fazer o mais fácil.