Raparigas do Barça arrasam rapazes e marcam-lhes 329 golos

O futebol tem mil funções. Para além de reforçar laços entre os povos - a Europa é um exemplo disso -, também estimula uma atenção ao fair-play e à igualdade entre géneros em todas as classes sociais. Por isso mesmo vale a pena ver esta história de ontem do New York Times sobre uma equipa feminina juvenil do Barcelona.

As miúdas do escalão 12/14 anos, que disputaram o campeonato regional da Catalunha, ganharam todos os jogos da sua Liga, marcaram 329 golos e sagraram-se campeãs com 14 pontos de avanço. Note-se: todas as outras equipas eram masculinas.

Assim se mudam paradigmas. Acabou a conversa das miúdas não saberem dar um pontapé na bola... Além de que, perder-se por mais de 10 golos contra este Barça feminino, deve ter obrigado a refazer todos os pressupostos pré-masculinos daqueles jovens "homens".

Grande notícia. É com passos destes que se vai instalando a igualdade entre géneros, coisa que na idade adulta desemboca na diferença salarial entre homens e mulheres, pressuposto de muitos anos de superioridade masculina ao longo dos séculos. E os estereótipos desfazem-se com circunstâncias simbólicas como estas. Socialmente é muito significativo elas ganharem ao outro sexo jogando com a mesma bola.

É certo que ainda não vimos, nos adultos, nenhum jogo entre a equipa campeã do mundo de futebol feminino (Estados Unidos) e o masculino (França). O Mundial que começa hoje, em França, poderia ter proporcionado um interessante desafio entre as duas equipas, ambas no ativo - os Estados Unidos, que estão lá a preparar o Mundial, e a seleção francesa (masculina), que joga sábado um desafio de qualificação para o Europeu 2020. Um jogo como este pode realmente acontecer a breve prazo?

Há, entretanto, várias lições deste caso da Catalunha. Primeiro, o facto de o "Barça" embarcar nesta aventura é por si só extraordinário. É novo e desafiante. Agora parece óbvio o interesse do teste, mas nenhum gestor desportivo "clássico" expõe a sua marca a algo tão desigual. (Sim, porque dir-se-ia, à partida, que estas jogadoras iam perder. Por muitos. Quiçá ficar em último lugar.)

Outra ideia importante é a do empoderamento psicológico. Aquelas mesmas raparigas, sem a camisola do Barça, seriam capazes dos mesmo feitos? Não sabemos. Mas em teoria, o poder da camisola ajudou a torná-las em "super power grils", o que coloca o Barcelona como um clube ainda mais "trendy" e arejado, capaz de romper onde ninguém arrisca.

Depois, obviamente, há a questão da equipa técnica, que também deve ter feito diferença.

Em Portugal há um caso interessante e pouco conhecido. No Leixões, o treinador dos sub-13, Vítor Barros, aliou-se ao "mental coach" Luís Acabado e usou os seus conhecimentos de meditação e técnicas respiratórias como um dos pilares do treino e instrumento de jogo em campo.

A equipa esteve 11 meses sem perder e foi disputar a fase final do campeonato. Entretanto os sub-15 do Leixões entraram no mesmo programa e passaram também à fase final da sua competição.

Quando se tenta perceber para que serve isto, Luís Acabado diz coisas simples e desarmantes: "O objetivo é ajudar os meninos na tomada de decisão. Com a pressão exercida pelas bancadas (pais) mas também com a concorrência do mundo digital, os miúdos perdem o foco e não mantêm o objetivo individual e coletivo. Mas mais do que o futebol, eles ficam com ferramentas para a vida".

Estes "saltos de conceito" reforçam a vontade de criar o impossível e, sobretudo, geram futuros cidadãos mais conscientes e confiantes, sejam rapazes ou raparigas. O fim último do futebol não devia ser outro.

Em Espanha os campeonatos das camadas jovens podem incluir equipas masculinas ou femininas, em conjunto, até aos 16 anos. O primeiro clube a fazê-lo foi o Atlético de Madrid, mas o sucesso não foi significativo. O Atlético de Bilbau tenta agora ir pelo mesmo caminho do Barça.

Veremos, entretanto, se em Portugal um dia isto também acontece. Mais vitórias como estas, em todas as áreas da vida, são a maior garantia de que um dia, as mulheres acabarão por ter efetivamente os mesmos direitos e garantias que os seus congéneres masculinos. Por cada golo que entra, quebra-se um tabu inconsciente de poder e desigualdade. Face ao nosso grau de violência sobre as mulheres, é preciso aprender a perder mais vezes com elas, desde pequenos, em todos os campos, incluindo os da bola.

Boa, miúdas!

(Para ver a reportagem e as desarmantes fotos)