Rainha quase destruiu a mais nobre invenção inglesa: o Parlamento

Posta numa só linha, a notícia é um dos maiores golpes perpetrado contra a democracia planetária e irreversível. "Rainha de Inglaterra aprova a suspensão do Parlamento a pedido do primeiro-ministro".

Esqueça as razões, a constitucionalidade ou a legitimidade formal. Mantenhamos o foco no conteúdo. Não há uma guerra, não há a morte do primeiro-ministro, não há uma hecatombe global. A Rainha tinha de decidir se alinhava com um golpe de teatro promovido por um pequeno génio do mal ou se mantinha a voz dos cidadãos no mais nobre fórum, criado há muitos séculos, pelos seus antecessores: o Parlamento. Ambas as decisões eram possíveis. O que fez? Tacitamente manteve o jogo a favor do Brexit e quase permitiu o silenciamento, durante cinco semanas, dos deputados eleitos.

Ora, quando a mais experiente regente do mundo toma uma decisão destas, resta-nos chorar e perguntar se o mundo está perdido. O mais antigo Parlamento em funcionamento podia, de facto ser suspenso, sem mais, num momento transcendente da História do Reino Unido, porque Boris Johnson pretendia centrar a ação do novo Governo nos assuntos internos do país...

Milhões de pessoas conheceram esta notícia, numa qualquer rádio ou em formato "última hora" de telemóveis, numa só linha, com esta simplicidade. "Parlamento britânico suspenso". Isso é possível? No Reino Unido? Se é possível lá, então é possível em todo o mundo. O que intuem as pessoas que ouvem uma notícia destas na Rússia? E na Turquia? E em tantos países de África ou Ásia? E nos ex-países de Leste com a tendência para o autoritarismo?

Tal como Trump decretou que deixou de haver verdade ou História, e passaram a existir apenas circunstâncias ou interesses, Boris Johnson filiou-se nesta mesma linha de autocracia. Tudo é tático e os fins justificam os meios. Ontem foi clamorosamente chumbado, não sabendo nós se nas próximas eleições (seja qual for a data) não tirará os dividendos certos destas manobras sinistras.

Uma coisa sabemos, irreversível: o nacionalismo está a corroer os povos e uma enorme maioria de ingleses, sobretudo com mais idade, detesta a Europa. O Brexit vai mesmo acontecer e, numa vã ideia de saudoso império, os súbditos de Sua Majestade preferem ficar sozinhos. Quem quer que se oponha a este processo vai perder.

Trump detesta os chineses, Boris os europeus, e podemos continuar por aí fora - todos detestam alguém. Como dizia Sartre, o inferno são os outros. E como, pelo voto, preferimos os nossos ódios aos nossos afetos, estamos a construir todos os dias os caminhos das guerras. Nas ruas do Reino Unido, no entanto, há quem não se renda a esta fatalidade. O que sucedeu esta semana é uma esperança para a democracia.