Pegar de caras nas touradas da TV

A RTP Internacional não pode transmitir nenhuma tourada porque a generalidade dos países onde chega não aceita a difusão de um conteúdo assim. Porque será?

Gostava de ver os forcados, em miúdo, valentes frente ao touro, nas noites da televisão da época. É toiro! Coisa fácil de imitar com os amigos, na rua.

No Porto, onde sempre vivi, não tinha contacto com touros nem touradas. Aquele espectáculo era relativamente asséptico na televisiva década de 70. Todo o sangue era a preto e branco, ou seja, inexistente. Tourada era um programa de televisão. Ponto final.

Começo por aqui para chegar à carta de António Costa a Manuel Alegre onde o primeiro-ministro diz: "Choca-me que o serviço público de televisão transmita touradas. Mas não me ocorre proibir a sua transmissão."

E isto é muito mais importante do que parece.

Porque é pela televisão que também se perpetua a cultura do "espetáculo indolor", da supremacia entre o homem e o seu entorno. Com todo o seu poder, a televisão educa ou desagrava. Molda as pessoas, as gerações.

Nos anos em que tive a função de dirigir o primeiro canal do serviço público de televisão, nenhuma questão foi tão polémica e fraturante como esta. Se dependesse do meu gosto pessoal, a RTP1 não teria transmitido touradas. Mas um canal público não é propriedade de um diretor.

Através de consensos variados, o número de touradas diminuiu de sete em 2015 (quando assumi funções) para quatro em 2016, três em 2017 e igual número em 2018. Fi-lo porque não há uma lei que impeça a transmissão deste tipo de espectáculos na televisão. Como tal, a RTP é de todos os portugueses, incluindo aqueles de quem discordo. Mas não deveria haver uma lei que regulasse algo com este impacto público? Até o primeiro-ministro sugere que sim. Mas obviamente não o faz.

António Costa sabe que todos os partidos estão divididos nesta matéria. Nem ele conseguiria aprovar uma lei para impedir estas emissões que representam, é preciso dizê-lo, uma verdadeira agressão civilizacional para milhares de portugueses - que se queixam fortemente da RTP (embora com menos lobby político a dar-lhe voz).

Entretanto repare-se: a RTP Internacional não pode transmitir nenhuma tourada porque a generalidade dos países onde chega não aceita a difusão de um conteúdo assim. Porque será?

Faço notar que a questão, para mim, é a da ilegitimidade ética de uma transmissão televisiva em sinal aberto.

Não apoiaria uma lei que proibisse, hoje, as touradas em Portugal. Seria precoce e inútil. As touradas vão morrer por si.

A perpetuação deste espetáculo de tortura televisiva (enquanto entretenimento), essa sim, é que gera os aficionados de sofá que reivindicam a partir dali os valores da 'cultura' e da tolerância (!!!) e a mantêm como um suposto costume português a honrar e manter. Mas até isso não é verdade.

Por exemplo, no Porto, a chegada do liberalismo no início do século XIX mudou a forma dos homens olharem em redor para a sociedade e, em consequência, para os animais e as touradas. Como tal, as praças de touros foram lentamente abandonadas e depois demolidas. O extinto "O Comércio do Porto (citado pelo interessante site portuense Ncultura), escrevia em 1870: "Vê-se que infelizmente se porfia no intento de introduzir nesta cidade um divertimento contrário à índole e hábitos dos seus habitantes, porém ainda que o não fosse, nem por isso ele deixaria de ser menos condenável e digno de reprovação".

Perto de 150 anos depois desta citação, continua a haver liberdade para se produzir e assistir a touradas. Mas está na altura de, em compensação, regular legislativamente este espetáculo nas televisões de sinal aberto como sinal civilizacional. A tourada já não é uma inquestionável manifestação de cultura 'tout court'. É também dor e violência. Milhões de portugueses já nada querem ter a ver com ela há quase dois séculos.

Daniel Deusdado escreve às quintas-feiras

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