La Fontaine da Bacalhôa: no tempo em que os Berardos falavam

O Circo.

Se fosse apenas isso, era bom. Não é. É a nossa vida. Um falhanço caríssimo.

Sabemos que a conta do passado já não tem remédio. A corte é velha. Lisboa tem caminhos insondáveis. Nós, os que vemos isto à frente dos olhos, vamos todos morrer sem esta dívida paga.

O verdadeiro poder do país está nos senhores de fato cinzento, na terceira linha - pouco na política, pouco no Governo, talvez nunca em lugar algum que permita fixar-lhes o nome. Mas são eles quem dão as palavras certas na altura exata. Consultores ou assessores, advogados, economistas, ex-jornalistas e outros que tal.

Como fazem? Quanto ganham? Como perduram e saltam de entidade pública em entidade pública?

Sabemos que na sua maioria moram por ali ou, no máximo, a uma distância máxima de 50 km do epicentro do Terreiro do Paço. É o colarinho branco vindo das melhores universidades quem urde a teia. Decidem a banca, a economia, a política, o futebol, as parcerias, os lugares governáveis e os que nunca serão nada. Criam laços através de clãs invisíveis como a maçonaria, a opus dei, os colégios dos filhos, os ginásios, os lugares de prestígio nos jogos de um dois clubes de futebol da capital, o golfe, etc..

Esta gente consegue colocar bem as notícias que importam. Também conhecem investigadores e polícias que conhecem procuradores e jornalistas até tudo isto se tornar em factos pré-consumados através das denúncias anónimas que escondem uns e arrasam outros. Têm o poder do telemóvel. E recrutam os que forem necessários por alto preço e nenhum decoro.

Cheguemos então a Berardo, o ridículo.

Trata-se de uma figura de outro calibre, um fadado para o sucesso.

Nada é pior que um self-made-man arrogante. Se cair, cairá até ser transformado em cinza. Vamos a isso.

O que queria Berardo? Ser importante pela arte, pelo vinho e já agora pelo Poder.

Berardo foi mais um figurante que deu muito dinheiro a ganhar a outros e perdeu tudo ao ser testa de ferro no BCP ou na OPA da Sonae. Sujeitou-se, por vaidade, à estratégia do mais falhado líder que Portugal viu existir na política desde o 25 de Abril: um tal de Sócrates. Berardo, o sabichão, às cavalitas do poder de Sócrates...

O que queríamos nós, cidadãos, de Berardo, no Parlamento? Que tivesse vergonha e embaraço. Uma mentirinha ágil. Taciturnismo, pelo menos.

Ele desconhece o que isso seja.

Venceu sempre na vida, babe. Mesmo que não tenha propriedade nenhuma, ele é feliz. Porque tem a posse de tudo. Estuda-se em Direitos Reais: quem vive feliz é quem possui. A propriedade é um papel. Advogados, babe.

Que Berardos estarão a acontecer hoje?

Olhar para as dívidas da banca e seus protagonistas é vexatório para todos nós. Dolorosamente irrecuperável. Por isso o que nos devia preocupar são os "Berardos" e as "Caixas" e os "Salgados" que estão a acontecer em tempo real à frente dos nossos olhos e não vemos. Ou desculpamos. Ou não queremos saber.

Milionárias rendas da energia: até aquando?

Mais barragens: para quê e com quem a lucrar?

Porque pagamos, em poder de compra paritário, das mais caras portagens rodoviárias da Europa?

Como se compreende que os combustíveis estejam concertados à milésima?

Parcerias na saúde: quanto excesso há nestas comparticipações?

Como podemos continuar a investir em monoculturas, com ajudas agrícolas europeias de grande escala, sabendo que não há sustentabilidade natural nem água para tanta produção (ex: o olival no Alentejo)?

Até quando vamos continuar a pagar com dinheiro 100% público o combate aos incêndios para que as celuloses e a indústria do pinho lucrem sem ajudar a pagar os custos da manutenção do seu negócio?

Porque tem a Lusoponte (grupo Vinci) um contrato que lhe dá uma indemnização por cada carro que passe numa futura ponte do Barreiro (depois de mais de 20 anos a explorar a Ponte Vasco da Gama)

E porque foi permitido à Vinci ficar com o monopólio de todos os aeroportos portugueses?

Quantos mais jornais vão cair por cada agência de comunicação que vai duplicar facturação?

Ah sim, Berardo. Adoramos comédia sem consequência.

Belmiro não consegue parar de rir

Quando Joe Berardo entrou como o herói dos trabalhadores da PT, na assembleia geral que decidiu a OPA da Sonae, muitos comemoraram. Mas agora todos choramos.

É doloroso voltar à memória daqueles anos em que a catástrofe se anunciava. Como jornalista de Economia que vivia a Norte, sentia-se um clima muito parecido com o do futebol. Um ambiente Norte/Sul na OPA.

(Na verdade, este clima nunca mudou.)

De um lado a corte política, os banqueiros e os média (árbitros ) subservientes às influências rentáveis. Do outro o arrivista do Norte, Belmiro de Azevedo, e o seu jornal rebelde, o Público.

Bem podia o homem-Sonae esgrimir os argumentos que quisesse. Eram eles quem mandava no país: Salgado, Sócrates, a PT, o novo poder do BCP, o controlo da Caixa, Manuel Pinho e tais os "campeões nacionais" de crédito ilimitado. E, entretanto, um tal de Berardo (na nossa casa, talvez uma vez por mês, pela mão de Mário Crespo na SIC Notícias às nove da noite).

A um domingo - Fevereiro de 2006 - recebo uma chamada da Fátima Campos Ferreira. Se eu estava disponível para ir ao Prós e Contras discutir a OPA. Pela primeira vez.

Em 2006 eu não era uma escolha óbvia para ir ao mais importante programa de debate da televisão portuguesa na altura - era freelancer e fazia um programa na RTPN, o Radar de Negócios. Fiquei ainda mais surpreendido ao verificar lá que não se tratava de um convite para a bancada. Fiquei em palco com Fernando Ulrich, Murteira Nabo, Vitor Bento, Diogo Vaz Guedes e Sérgio Figueiredo.

Logo na altura vi um ponto: na verdade, muitas figuras importantes dos media poderiam estar ali. Mas creio que a produção do programa não encontrou gente que estivesse disponível para dizer, claramente, porque era a favor daquela OPA da Sonae e assumir ser contra o "establishment" Salgado/Sócrates/Berardo.

Uma nota: eu tinha noção do que representava o desmembramento do monopólio TV Cabo em duas empresas - tal como sucedeu depois. Em 2004 juntei-me com dois outros empreendedores para tentar criar o Porto Canal. Depois de alguns meses de espera, fomos finalmente recebidos na TV Cabo por um ex-secretário de Estado, na altura administrador.

A reunião foi inesquecível. As condições para colocarem o Porto Canal na grelha do cabo eram apenas estas: pagávamos 300 mil euros no primeiro ano, 600 mil no segundo e a partir do terceiro, um milhão de euros.

Não, não há engano. Apesar de a TV Cabo receber dos clientes para ter conteúdos, não estava disposta a ajudar o novo canal a produzi-los. Pelo contrário: ainda exigia um milhão/ano a velocidade cruzeiro.

Portugal era tóxico e fechado a uma elite.

E assim ficamos dois anos no limbo.

Quando, dois anos depois (Fevereiro de 2006), saí do debate sobre a OPA, um desses meus amigos ligou-me e perguntou-me se eu estava maluco. Durante o próprio programa, gente bem colocada na PT ligou-lhe a garantir que nunca mais teríamos o canal.

Na verdade, as tais figuras cinzentas de que ninguém ouviu falar (exceto pontualmente no Jornal de Negócios), faziam o que queriam. E o poder político - na altura ninguém queria ouvir falar de canais regionais - não era uma ajuda para instalar a democracia ou, se preferirmos, a simples economia de mercado.

Quando Belmiro propôs a separação da rede fixa/rede cabo, aconteceu algo de extraordinário em Portugal. O mercado tinha uma hipótese florescer. É verdade que a Sonae perdeu, mas o desmembramento fez-se e Portugal deu um enorme salto nas telecomunicações, com Zeinal Bava a puxar de um lado na PT (agora MEO) e Rodrigo Costa na ZON Lusomundo (atualmente NOS). E assim fomos pioneiros nas boxes, na fibra óptica, nas gravações automáticas, etc...

O Porto Canal acabou por surgiu no último trimestre de 2006, já eu não era sócio, mas sem dinheiro que se visse dos operadores. O canal só se tornou minimamente viável quando, em 2011, o FC Porto tomou conta dele, exigindo receber uma proporção do que recebia a Benfica TV (que obviamente foi entendido como um canal essencial e com direito a receita desde o primeiro dia).

E só para terminar este capítulo: porque perdeu Belmiro?

Porque Salgado convenceu Sócrates que a PT era "deles" e com isso controlariam a TVI e dominariam os média. Assim bloquearam a OPA da PT usando Berardo como o testa-de-ferro.

Eis o belo resultado que arranjaram: perdemos a empresa (PT) mais estruturante para o futuro do país nestas décadas que se seguem.

Podemos mudar?

Hoje, com a banca estrangeira a mandar nas principais insígnias nacionais, não há esquemas para jogar bilhar às três tabelas com o crédito.

Mas os projetos de investimento e as decisões políticas continuam a ser o ponto essencial. E nessa matéria, a tecnocracia cinzenta que nos trouxe até aqui, continua instalada nos mesmos sítios.

Como portugueses devíamo-nos preocupar seriamente com isto. Os media na capital não se apercebem da indignação com que o resto do país vive este obscurantismo.

Gosto sempre de recordar que Passos Coelho ganhou eleições a Norte em 2015 (quase sempre a bater nos 40%) porque o país que paga boa parte desta conta - o país exportador e de baixos salários - está farto. Nas últimas eleições o Norte preferiu a austeridade com menos Estado do que as promessas de António Costa ou da esquerda.

Sabemos que Passos foi um mistificador: deixou a casa arder cada vez mais para demonstrar que não tinha sido ele a começar o incêndio. Na banca isto foi escandalosamente evidente e nós ainda andamos a pagar essa conta. Mas não nos enganemos: a conta está demasiado alta.

Se Berardo explicar como tudo isto se fez, o povo vai ouvir e perceber porque ele fala simples. Tudo isto faz lembrar "Versailles" versus tanta gente literalmente na pobreza. É demais. E Salgado continua cá fora e ainda não vimos à frente o monstro: a Operação Marquês. O populismo/justicialismo veio para ficar.

Ler mais

Exclusivos