Imunidade sem rebentar SNS: trabalhadores são os novos heróis

Os austríacos ou os checos são os mais inteligentes da pandemia? O modelo sueco falhou? É absurdo fazer contas a meio desta corrida. Uma coisa sabemos já: quem confinou mais cedo, acertou. Mas a resposta à segunda vaga não será certamente igual. As circunstâncias mudam todos os dias e informação vital aflui com novos dados. O confinamento está a criar a maior crise económica da História do mundo. Não é um problema de bolhas económicas ou correções financeiras. É outra coisa nunca antes vista: não-produção à escala global, apesar de continuarmos a consumir. Temos de lutar contra duas pandemias em simultâneo. Podemos?

As informações mais relevantes dos últimos dias surgem, não dos cientistas das vacinas ou de novos fármacos, mas dos epidemiologistas. Neste momento são eles quem gerem as expetativas do mundo inteiro.

O que dizem os epidemiologistas? Com a informação disponível projetam cenários de imunização coletiva por países, com base em alguns pressupostos.

Primeiro pressuposto, positivo: a infeção não regressa após o primeiro contágio, dizem os investigadores sul-coreanos. Pode ainda ser cedo para se terem certezas, mas é um indício excelente.

Segundo pressuposto, o mais importante de todos: provavelmente mais de 80% da população não terá sintomas de Covid-19 e só menos de 20% das pessoas acabem infetadas. No universo de casos positivos, 85% fica em tratamento assistido em casa, mais de 10% necessitam de internamento, e menos de 3% têm precisado de cuidados intensivos/ventiladores.

Estes pressupostos fazem toda a diferença face ao que sabíamos há dois meses: não temos de imunizar ou encontrar resposta médica para toda a população, mas apenas para 20%.

O extraordinário estudo de Loulé

O estudo serológico levado a cabo pela Fundação Champalimaud e o Algarve Biomedical Center, em Loulé, trouxe esta semana os primeiros dados nacionais de grande relevância quanto à imunidade.

Em 1235 pessoas testadas - funcionários da Proteção Civil, forças de segurança e trabalhadores dos mercados -, há esta surpresa: por cada teste positivo 14 casos Covid-19 eram assintomáticos, e como tal não testados. É uma proporção brutalmente acima da taxa de infeção que se julga de referência (1 infetado por cada 4 saudáveis).

O exemplo de Loulé é simbólico, mas mais um, que apoia a base matemática apresentada pelos epidemiologistas. Há uma imunização coletiva a desenvolver-se por todo o mundo e a velocidade parece superior ao que pensamos. No limite extremo deste otimismo estão os investigadores de Singapura que anunciaram um possível fim da Covid-19 para este ano.

A doutorada em matemática de epidemiologia Gabriela Gomes, atualmente na Escola de Medicina Tropical de Liverpool, previu o fim da Covid-19 para Portugal no Outono/Inverno de 2021, sem nunca ultrapassarmos a curva de resposta do SNS e sem nenhuma vaga maior que a de Março passado.

Espanha, por outro lado, teve tantos casos que vai estar fora da Covid-19 muito mais cedo e sem mais vagas.

Ora, informações como estas são importantíssimas. Porquê? Manter a fronteira fechada com Espanha pode acabar por não ser perigoso para nós, daqui a meia dúzia de meses - e isso é vital para o turismo.

É verdade que "imunidade" passou a ser uma palavra maldita, depois da loucura inicial de Boris Johnson, Trump, Bolsonaro e alguns outros. Não enfrentar a Covid-19 no arranque é absurdo, sobretudo quando não se tem sistemas de saúde minimamente preparados.

Todavia, os suecos, que arriscaram mais, até agora não rebentaram a capacidade do seu SNS, embora tenham mais vítimas que os seus vizinhos. Mas os seus cientistas dizem que, no final das diferentes vagas, o padrão de óbitos será idêntico em todo o lado - desde que os SNS funcionem para não haver vítimas extra por falta de tratamento.

Claro, não tivesse Portugal confinado e certamente estaríamos com um cenário de vítimas proporcionalmente idêntico ao de Itália e Espanha. A estratégia foi certíssima no início de Março. Mas coisa diferente é manter-se uma defesa sistemática do confinamento radical daqui para a frente, num mundo em que o SNS não está a rebentar pelas costuras e há hospitais de campanha preparados, muito mais ventiladores disponíveis, e, ainda por cima, este ponto novo: afinal, talvez só 20% ou menos da população não esteja "imune" à Covid-19.

A ser assim - e as próximas semanas vão responder a isso - não só é positivo que o processo de imunização coletiva continue, como vamos poder reabrir a economia com mais confiança em menos tempo. Porque, no final, abrir as fronteiras e os aeroportos dependerá deste ritmo de imunização que o Instituto Ricardo Jorge vai estudar em breve.

Outro dado muito importante é trazido por alguns biólogos, que alertam para um novo perigo: a falta de contacto humano não nos vai permitir produzir imunização a diferentes tipos de "pequenas doenças" como a gripe. E isso vai tornar-nos mais frágeis. Obviamente não podemos correr riscos agora, mas é importante perceber que os "outros" não são apenas ameaças biológicas. No final disto vamos precisar muito da nossa vida em sociedade sem máscaras e com abraços porque "outros" são, quase sempre, aliados biológicos.

(Frise-se: enquanto não existir vacina ou um medicamento eficaz, todo o cuidado é pouco. A missão social de cada um é usar máscara, lavar as mãos e manter a distância social de forma a não contrair a doença.)

Combater o pânico

O novo combate pandémico passa agora por enfrentar o mundo com lucidez crescente. Sabermos ler os números sem pânico e com base em três parâmetros: quantos novos casos e vítimas tem cada país por milhão de habitantes; quantas pessoas perdem a vida diariamente em cada país; e se o número de óbitos é muito excendentário face à média diária. Se os telejornais fizessem isto, fariam uma leitura mais rigorosa da realidade, e com isso diminuiriam a sufocante angústia Covid-19.

No caso português, todos estes vetores são, à data de hoje, completamente aceitáveis. Aliás, mesmo com 500 ou mais casos diários - desde que a taxa de transmissão sintomática (o tal R0) seja sempre inferior a 1 - podemos coabitar em equilíbrio com o regresso ao trabalho.

Um dia como o de ontem, com 539 novos casos, menos de mil doentes internados e menos de 200 nos cuidados intensivos, é um dia na média do expectável. Porque significa que a velocidade da nossa imunização se processa a bom ritmo (como se viu em Loulé), e o SNS está a menos de metade da capacidade de resposta normal ao coronavírus.

Os trabalhadores portugueses, que permaneceram ou estão a regressar ao trabalho, são os heróis desta segunda fase. São eles quem se estão a expor ao risco de manter o processo de imunização em curso (ou contrair a doença, mas serem defendidos pelo SNS). São eles que saíram do lay off e voltaram a produzir. São eles que nos vão voltar a fazer exportar a breve prazo.

Hoje, 8 de Maio, dia da Vitória, 75 anos depois da derrota nazi, o combate dos trabalhadores pela economia portuguesa é, também ele, mais um ato de um quotidiano histórico e heroico que nos vai ajudar a salvar o país de uma gigantesca crise económica. Não podemos ficar atolados em dívida e nas mãos dos cruéis credores e agências de rating de que ainda nos lembramos bem. Máscaras e imunidade são as novas armas do quotidiano. Há uma luz ao fundo do túnel. É segui-la.

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