Erradicar o vírus é impossível. Libertem as praias

Sucesso é ter zero casos? Pois, ouvindo-se as notícias, parece. Podem fechar-se indefinidamente países para não entrar a covid? A Nova Zelândia tem dinheiro para isso. A Madeira e os Açores, com o seu "sucesso" de zero casos novos, podem fazer o mesmo?Quantos meses conseguem viver sem qualquer turismo? Se o vírus não vai desaparecer, é preciso aprender a viver com ele e deixar a imunização acontecer, sempre de forma controlada. Mas a vida tem de seguir aos poucos.

Se tivermos em conta que o vírus não pode ser erradicado, então ter poucos casos, ou nenhum, significa que o processo de imunização coletiva foi suspenso. A segunda vaga, com tempo frio, espirros e tosse, será súbito e com maior volume. Sucesso é isso? Será tarde.

Repare-se: porque têm a República Checa, Áustria ou Coreia do Sul casos agora em ligeira subida? Porque não sofreram picos tão significativos na primeira vaga. Os epidemiologistas andam a dizer isto há semanas: toda a gente vai passar pela Covid-19 até imunizar pelo menos 60% da população ou ter milhões de vacinas para distribuir. Todos os países. Ou antes ou depois.

Vejamos o relatório da DGS de ontem, com 252 casos novos. Há alguma tendência crescente nos últimos dias? Não. Os números que contam descem constantemente. E são estes: já estamos abaixo dos 100 em cuidados intensivos. O SNS está já apenas com 20% de ocupação. Portanto, o que significam estes casos novos diários? Quase nada. São, muitos deles, casos assintomáticos. Apenas demonstram que estamos a fazer mais testes.

Acrescente-se ainda este ponto: o número de vítimas covid (que se lamentam sempre) é inexpressivo se tivermos em conta que falecem, em média, 300 pessoas por dia em Portugal. E muitos dos óbitos resultam de uma letal combinação de covid com problemas prévios em idades avançadas.

Claro que idealmente ninguém devia morrer. Idealmente, aliás, não existiria covid. Mas olhando para as circunstâncias, Portugal não podia ter melhor comportamento cívico ou melhores números gerais da Covid.

Por isso mesmo é absolutamente deprimente e lamentável a forma desastrosa como está a ser gerido o tema "praias" pela Direção Geral de Saúde/Ministério da Saúde/Governo (quem manda?). É certamente mais perigoso participar nas conferências de imprensa diárias da DGS do que ir à praia, mesmo que apinhadas em Agosto. Graça Freitas e o secretário de Estado da Saúde não distam dois metros; não usam máscaras; estão em ambiente fechado. Pelo contrário, nas praias as pessoas estão ao ar livre; no mar o vírus não se transmite; o Sol e o bem-estar reforçam a imunidade; e os portugueses já deram provas de saber cumprir minimamente as regras de convivência social.

Com esta trapalhada das 78 regras, polícia nos estacionamentos, semáforos à entrada do areal, praias fechadas nos dias seguintes se os "meninos" se portarem mal, e as dúvidas sobre quando há lugar, na verdade... já não dá grande vontade de ir.

As praias! Era das poucas coisas com que se podia ir sonhando. Era bom para o turismo interno e para a saúde de todos. Lamentavelmente, o Governo está a desfazer um dos poucos prazeres de quem sonhava com pelo menos uma semana de férias - num ano em que nem sequer o Verão é de descanso.

Ainda por cima, quando o problema é de distância entre pessoas, impedir as praias não vigiadas é absurdo. Há perigo de afogamentos? Mas tudo é um perigo hoje em dia: a covid, a falta de vitamina D, os afogamentos, os nervos em franja com a situação económica... Quase apetece dizer: deixem-nos morrer com alguma calma!

Dito de outra maneira e agora a sério: se o problema das praias não vigiadas são os banhos, metam lanchas da polícia marítima ao longo da costa e vão vigiando a costa em permanência. Mais valia investirem em lanchas do que em acrílicos e semáforos nas praias.

Está a dar-se uma privatização das praias, tornando-as muito menos democráticas e apenas ao alcance de quem tiver 15 ou 20 euros por cada 4 horas/pessoa, compradas x 7 dias por quatro metros quadrados na melhor das hipóteses. A profilaxia do enjaulamento como ideia de saúde pública vai ficar nos livros da História.

(Até os aviões, a partir de 1 de Junho, vão deixar de ser obrigados a ter cadeiras vazias. Só na praia é que estamos perto demais?)

Portanto, é absolutamente lamentável que o Governo vá falhar onde era mais fácil: confiar na maioridade do povo português. Mesmo que sucedessem casos de mau comportamento cívico (sim, claro, explorados até ao tutano pelos novos media da tragédia), eles nunca seriam a dominante cívica a que estamos habituados.

Com este modelo DGS-kafkiano-digitalizado (o "Minority report" do areal), pelo contrário, é de prever que as pessoas se revoltem, e haja problemas de vandalismo. Ou se resignem pura e simplesmente a não ir. E isso é exatamente aquilo que este extraordinário povo não merece: perder o direito ao seu mar e à sua praia. Não somos portugueses sem isso. Como tal: libertem as praias. Se for necessária uma banda sonora para este Verão, usem-se os Delfins: Sol-tem os pri-sio-nei-ros!

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