Draghi: o salvador da Europa merecia o Nobel da Paz

Juros mais baixos. Existem três palavras mais importantes do que estas para Portugal?

O milagre português, também conhecido por "contas certas Centeno", tem por detrás um homem essencial para a nossa vida nesta década: Mário Draghi. Quando iniciou o mandato de presidente do Banco Central Europeu, em Novembro de 2011, já nós estávamos enfiados na Troika até ao pescoço e a política europeia girava em redor do violento espartilho criado pela Alemanha/FMI. O BCE era então um guichet fechado para balanço representado pelo gestor de circunstância Jean Claude Trichet.

Até que Draghi entrou. Meio ano depois - Julho de 2012 - proferiu talvez a frase mais importante do século XXI até ao momento para Portugal e Europa: "Durante o nosso mandato, o Banco Central Europeu fará o que for necessário para proteger o euro. E, acreditem, será suficiente".

Esta frase pôs fim às dúvidas sobre a sobrevivência do euro e deu a garantia de que não haveria falência dos países a ele ligados. Depois iniciou a famosa estratégia do "quantitative easing" que, na prática, representou emprestar dinheiro (via obrigações) aos países da zona euro a taxas extraordinariamente baixas, sem limite de emissão de moeda. Isso garantiu a países como Portugal uma diminuição brutal da conta anual de juros da dívida.

Recorde-se que, com uma dívida pública acima de 120% do PIB, Portugal entregava mais de 5% da sua riqueza anual para juros, valor que desceu drasticamente ao longo dos últimos oito anos. E como esta estratégia desencadeou uma dinâmica virtuosa, quanto mais o défice melhora, mais barato se torna substituir dívida nos mercados internacionais a taxas de juro baixas. E consequentemente o rating sobe à medida que o défice desce.

Atualmente quase metade da dívida portuguesa está a taxa de juros negativas e o valor médio de toda a dívida pública só paga 1,5% de juros ao ano.

Este facto é ainda mais extraordinário para Portugal, e outros países europeus, porque permitiu evitar que milhões de milhões de milhões de euros fossem parar aos bolsos dos especuladores internacionais que, como abutres, espreitavam a oportunidade para nos comer vivos.

Não é fácil contabilizar quanto foi poupado a cada cidadão da zona euro, não apenas em juros, mas igualmente em competitividade da economia. Porque juros baratos geram mais investimento, manutenção do mercado imobiliário, mais consumo, menos falências, menos gente sem casa por não cumprir com a hipoteca.

Isto é ainda mais extraordinário porque Draghi nunca teve verdadeiramente os ortodoxos da Alemanha e do BCE do seu lado como prova, uma vez mais, a notícia de ontem do Financial Times. Segundo o jornal inglês, os seus adversários internos manifestaram-se em grupo, e por escrito, contra uma nova e surpreendente medida de Draghi de impedir o fecho das portas do cofre do BCE. E tornaram isso público.

Draghi tenta evitar o abrandamento da economia europeia face à escalada da guerra comercial liderada por Trump contra a China e agora também contra a Europa. Já os presidentes dos bancos centrais de países como Alemanha, França e Holanda estão contra.

Mesmo assim, o presidente do BCE decidiu de novo agir ignorando o peso da Alemanha e França e atuar em nome da maioria que obteve a seu favor no Conselho do BCE, deixando um legado à próxima presidente: manter as taxas de juro negativas e dar mais tempo para os Estados acederem a crédito no BCE.

Um homem assim é um embaixador da paz com uma sabedoria, diplomacia e coragem que raramente encontramos.

Se isto não é notável, não sei o que é notável. Ainda por cima, estas decisões vêm de um homem que foi vice-presidente dessa instituição predatória chamada Goldman Sachs, casa habituada a fazer dinheiro com a desgraça das nações. Ora, foi exatamente um homem com o "know-how" dos falcões que livrou milhões de pessoas de entregarem os seus impostos e rendimentos aos especuladores extremistas que atuam no território das dívidas soberanas (e por consequência no custo dos juros no mercado bancário comercial).

Eis como a Economia é um território onde se pode jogar a paz, paz essa que evitou o eclodir de instabilidade e pobreza. Um homem assim é um embaixador da paz com uma sabedoria, diplomacia e coragem que raramente encontramos.

Mais: foi a estratégia Draghi que levou o Fundo Monetário Internacional a reconhecer como foi errada a política do choque austeritário fulminante em países como a Grécia e Portugal. Porque a estratégia de cortes súbitos e brutais não dá tempo a que as empresas sobrevivam ao impacto de medidas avassaladoras, gerando desemprego e quebra do crescimento económico.

Christine Lagarde, que agora sai do FMI para o BCE, foi a primeira a reconhecê-lo - e todos desejamos que tenha aprendido algo com o sucedido.

Em Portugal, aliás, os que continuam saudosos do tempo masoquista da Troika, ainda hoje não conseguem perceber o que se passou: qualquer que seja o medicamento, para chegar a veneno, só depende da dose. Uma empresa que fecha não reabre um ano depois com as mesmas pessoas e o mesmo "know-how". É só desemprego e perda. Mas foi isto que a inexperiência de vida de Vítor Gaspar e Passos Coelho geraram - e só uns académicos de alpaca continuam a abanar a cabeça e a gritar alvíssaras aos méritos de tamanha hecatombe.

Draghi sai do BCE a 31 de outubro. É um homem do Sul da Europa. Ajudou-nos a ter condições para sairmos do buraco nos últimos quatro anos. Acho que os portugueses e europeus lhe devem um obrigado. Mais: por tudo o que representaria o desmembramento do euro e da Europa, e por mais que aprecie Greta Thunberg ou Jacinda Ardern (primeira-ministra da Nova Zelândia), este ano o mundo devia o Nobel a este homem.

Exclusivos