Demasiado Portugal em casa. Demasiado Portugal na rua

1. Demasiada casa

A forma como se dará a abertura das escolas definirá o que aí vem nos próximos meses. Sejamos lúcidos desde já: as escolas não querem abrir agora. Nem depois. Os pais têm medo, os professores e pessoal de apoio também.

O ministro da Educação esteve na TVI e garantiu que as escolas só abrirão quando existirem, sem quaisquer dúvidas, "condições de segurança". Percebe-se que a frase, hoje, é para as semanas seguintes. Mas, caro Tiago Brandão Rodrigues, prepare-se: se o princípio é este, então só vai haver aulas quando houver vacina. Ou seja, comece a preparar apenas o ano letivo de 2021-2022 porque neste Outono não terá alunos. Logo que comecem os espirros, fecha tudo.

A Confederação de Pais quer segurança - mais do que aulas. Não se pôs sequer a hipótese de pedir eventualmente aulas a partir de Junho ou Julho, terminando o ano letivo em Agosto. No meio de uma catástrofe como esta, Agosto é intocável nas escolas?

Outro ponto complexo: desde este mês a lei permite aos pais um apoio a 100% para ficarem em casa com as crianças, quando estas estão doentes. É um avanço civilizacional se for gerido de boa-fé pelos pais. Mas pô-la em prática numa pandemia é um erro. Que sentido faz um pai ou mãe receber 100% do salário para tomar conta de uma criança que não está doente - é a escola que está fechada - e ao lado um trabalhador em lay-off receber apenas 2/3 do salário?

2. Demasiada rua

Veja-se, no entanto, o que é vida na selva dos mais desprotegidos: ontem de manhã, quinta-feira de Páscoa, Linha de Sintra. A CP, e bem, perante um estado de emergência agravado, planeou menos composições. Só que faltou o outro lado da decisão: como iria menos gente trabalhar se o Governo não suspendeu o trabalho nas empresas não essenciais? Resultado: comboios apinhados em plena pandemia. Como é óbvio, houve deslocações entre concelhos porque era preciso continuar a rumar a Lisboa para trabalhar.

3. Demasiada hesitação

Ontem, aliás, o ruído da construção civil continuava, como todos os dias. Que espera o Governo para pedir paragens limitadas a todos os sectores por períodos estratégicos - como teria sido o desta quadra de Páscoa? O achatamento da curva faz-se devagarinho...?

Sejamos claros e esqueçamos por momentos a boa percentagem, baixinha, de novos casos diários. Olhemos para os números: a 31 de Março passamos a linha de mil casos novos, o máximo até agora. Assustamo-nos. Mas quatro semanas depois, com talvez 75% da população portuguesa em confinamento, a média diária de casos continua a ser de 700 a 800 casos diários... Ainda ontem, 815.

Nunca percamos a visão 360º: a cada dia que passa, não olhar com sensatez para o futuro do emprego das pessoas gerará um desastre ainda maior. Por isso se devia ter feito muito mais neste Abril: uma paragem de todos os setores nesta semana de Páscoa; fins de semana de três dias durante este mês para todas as indústrias e construção; comércio fechado aos domingos e manter o impedimento da circulação entre concelhos. Todas estas medidas extra aconteceram em Espanha e Itália no meio do caos. Em Espanha, as duas últimas semanas foram de paragem total - com recurso a dias de férias ou horas extraordinárias futuras e não lay-off.

Friso este ponto: devíamos intensificar as medidas excecionais em Abril. Para vencer Abril. Para tornar Maio um mês com menos constrangimentos - ou no limite, Junho. Não esta coisa mole.

Veja-se a questão dos emigrantes ou as chegadas aos aeroportos. Não faria sentido tornar claro previamente que, quem chegar, vai ficar dois dias num confinamento obrigatório de campanha até ter dois testes negativos à covid-19 (testes em regra pagos por si)? Compreende-se que o Governo não feche totalmente as fronteiras. Mas é imprudente importar o risco sem controlo nem aviso.

4. A maratona infinita

A perigosa metáfora da "maratona" amarra-nos a uma luta sem músculo. O tal longo prazo. Caro António Costa: estamos mesmo a querer parar isto ou não? Olhando para o discurso da diretora geral de Saúde, Graça Freitas, é para ficar aqui para sempre - ou, como ela chegou a dizer, "até haver uma vacina".

A Dinamarca começou depois de nós e já está a sair da crise (em proporção tem os mesmo números que Portugal, mas com casos novos a descer). A Áustria, da mesma forma. Como é que o Governo não é mais incisivo, agora que estamos tão perto de uma primeira vitória?

Desde 2011, antes mesmo da chegada da troika, defendi a solução António Costa/Rui Rio, na altura presidentes das Câmaras de Lisboa e Porto, para assumirem os destinos do país (em vez de José Sócrates ou Passos Coelho). Prova-se neste momento que estamos com as pessoas certas. A capacidade de luta, resistência e otimismo do primeiro-ministro são providenciais. Rui Rio tem sido uma voz ponderada e arguta. A influência e trabalho de bastidores do Presidente da República é essencial e uma segurança para os portugueses.

Mas, por favor, ajam sem hesitações para podermos ter melhores números que afastem o medo nesta primeira fase. Se não for assim, não há discurso moral que mantenha em casa os que precisam de trabalhar, nem números consistentes que tirem de casa as pessoas que têm mais medo que necessidade.

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