Toda a gente tem razão. Difícil é mudar o curso dos acontecimentos. A questão é simples: alguém consegue para parar a escalada de ocupação dos hospitais sem vacina nem confinamento? Até agora não, em nenhuma parte do mundo. O que fazer, então, perante a segunda vaga se não temos vacina e não podemos (nem queremos) confinar?.Sabemos que novos casos não significam, em 97% das situações, um problema hospitalar. Mas, mesmo assim, se eles continuam a subir vertiginosamente com a chegada do tempo frio, temos de nos guiar pelo número de pessoas nas unidades de cuidados intensivos (UCI). E começamos a ficar com o coração nas mãos. Hoje chegaremos a 50% da ocupação face aos dos 271 ventilados que atingimos em Abril..Pergunta-chave: o Governo conseguiu dotar o SNS de capacidade de resposta (infinita)? Há realmente perto de 1500 camas UCI (incluindo as dos hospitais privados)? Ou vamos chegar a um ponto de rutura como aconteceu em Itália ou Espanha?.Só um milagre cívico nos poderá afastar desse caminho. Se o milagre não acontecer, goste-se ou não, há apenas um método arcaico para atenuar o ritmo da transmissão - o lamentável confinamento..Detesto-o. Creio que quase todos nós. Mas, se estivermos com 3000 ou 4000 casos por dia, e depois 50, 60, 70... 100 mortos, e por aí adiante, a realidade impõe-se. E esmagará..Escrevo este texto tal como sugeri em março que o Governo deveria ter planeado uma paragem na Páscoa para aliviar o contágio. Espanha e Itália fizeram-no, e mesmo assim não chegou. Mas foi decisivo para mudar o curso dos acontecimentos ao longo dos dois meses seguintes..Parar a economia de forma cega é absurdo. Por isso o Governo deveria melhorar o seu ponto fraco nesta pandemia: a antecipação. Ou seja, e indo ao assunto-chave: as empresas até suportarão algumas paragens estratégicas, desde que planeadas. Deveríamos então olhar para dois momentos do calendário onde podemos aliviar a escalada do contágio, com o menor custo possível..Primeiro momento: feriados do 1 e 8 de Dezembro. Se o Governo parar toda a economia (comércio não essencial incluído) entre sábado, dia 28 de novembro, e terça-feira, 8 de dezembro, conseguiria diminuir de forma radical os movimentos de pessoas durante 11 dias. Como este período inclui dois fins-de-semana e dois feriados, seriam 6 dias sem custo produtivo e cinco dias de trabalho. Anunciado o confinamento com a devida antecipação, todos os setores - desde a cadeia logística e de transportes, ao comércio e compras pessoais, aulas e atividades letivas -, poderiam planear e minimizar os impactos deste confinamento estratégico..E quem pagaria esses cinco dias de paragem? As empresas. Sejamos francos: vai ser quase impossível manter toda a gente a trabalhar porque, da simples tosse à gripe, da quarentena do filho na escola à suspeita do amigo do ginásio, isto está a tornar-se ingerível. Vai haver sistemáticas disrupções de funcionamento na economia já em novembro..Os empresários são os primeiros a quererem que a pandemia abrande. Oferecer cinco dias para uma causa nacional, nem se discute. Não há outra maneira da situação melhorar. As empresas perdem ainda mais caso a covid se mantenha imparável..Em contrapartida, os trabalhadores suportariam a segunda paragem. Poderia ser marcada entre 24 de dezembro e 3 de janeiro, domingo. Na prática, tendo em conta que pouca gente trabalha nos dias 24 de dezembro e 31 de janeiro, conseguir-se-ia uma paragem nacional de 12 dias em com apenas 4 dias de trabalho - a serem descontados nas férias de 2020 ou 2021 dos trabalhadores. Um "custo" pessoal, apesar de tudo, suportável face ao que se vive..Desta forma, seria aceitável que as famílias se deslocassem no Natal porque todo o risco de transmissão estaria limitado às relações pessoais mais próximas. E, realisticamente, não vale a pena pensar no reveillón de 2020. O sector do turismo sai, uma vez mais, altamente abalado mas, sejamos francos, este final de ano é para esquecer, todos sabemos disso..Assim, talvez chegássemos a janeiro com alguma descompressão. Talvez nessa altura possa haver ecos da vacina. Talvez já haja melhores medicamentos para combater a covid. Talvez se tenha ganho uma folga nos cuidados intensivos. E se, infelizmente, a pandemia voltar a piorar em janeiro e fevereiro, usar-se-ia a válvula do confinamento na semana do Carnaval..Em resumo: da mesma maneira que se espera que o Ministério da Saúde tenha aproveitado todos estes meses para equipar os hospitais com uma fortíssima capacidade de cuidados intensivos em ventiladores e formação de recursos humanos (porque camas de internamento sempre existiram), é vital planear a economia. Estamos a salvar vidas através dos empregos. O Ministério da Economia trata disto ou só transfere dinheiro?.Aliás, tenho uma dúvida ainda pior: se as pessoas vão atravessar novembro sem fugirem para casa. Por isso é tão importante um sinal atempado, uma válvula de escape, uma contagem decrescente para se fazer algo minimamente eficaz. Porque, como dizia o médico Gustavo Carona, num texto recente no Público, "nos hospitais só podemos tentar esvaziar o oceano com uma colher de chá". A escalada é exponencial. E estamos a fazer tão pouco que até as colheres de chá podem começar a faltar.