Colapso Coronavírus:​​​​​​​ depressão ou revolução?

"O meu reino por um cavalo", disse Ricardo III. Abortar a radical transformação social e económica gerada pela covid-19 depende de duas coisas: da vacina ou de um medicamento.

A revista Nature mencionava recentemente 79 vacinas prontas para testar. Algumas já estão em experiência. Seria extraordinário que no Outono uma conseguisse parar o surto. Mas nunca uma vacina foi testada e produzida em seis meses. O risco de efeitos secundários ou erros de produção é grande. Há casos significativos de problemas irreversíveis quando estas não foram suficientemente testadas. Veremos se a promessa dos cientistas suíços muda este paradigma.

Não é de excluir uma hipótese mais simples: um medicamento que evite a morte causada pela covid-19. No entanto, como temos visto ao longo de décadas, nenhum tem sido absolutamente eficaz com diferentes estirpes de vírus. Com a gripe, por exemplo, os médicos repetem uma ideia conhecida: numa virose, hidrate-se e espere que passe.

Mesmo com mais de 80 medicamentos em processo de teste, não é seguro que algum composto chegue até ao Outono.

Depressão: quanto dinheiro têm os Estados?

O tempo conta. O dinheiro esvai-se. Se precisarmos de mais confinamentos rigorosos no outono e inverno, só os apoios do Estado separarão a maioria as pessoas da rutura total.

Em Portugal, os lay-off custam mil milhões por mês, mas há muitos outros milhões para as empresas e despesas que vão ultrapassar qualquer paradigma da velha normalidade. (Lembram-se quando festejámos o equilíbrio orçamental? Foi há 3 meses).

Se a economia europeia e global não funcionar durante 6 meses, a conta a pagar será absolutamente gigantesca e o PIB poderá cair provavelmente mais do que 20% num só ano em toda a Europa. E o desemprego igual.

Quanto mais isto durar, mais recuamos - não em anos, mas em décadas.

O plano ontem iniciado pela União Europeia, e que prevê 1,5 triliões de euros (1,5 biliões de euros, na bizarra conversão portuguesa), tentará aguentar um cenário com avanços e recuos no confinamento. Porém, se não houver aviões, nem turismo, nem economia global a breve prazo, nem 1,5 triliões chegarão.

Como ontem ficou evidente em Bruxelas, 19 países europeus, incluindo Portugal, querem um plano de salvação baseado em "dívida perpétua", ou seja, uma ficção monetária que só se pagará na eternidade.

Todavia, holandeses, austríacos, dinamarqueses e suecos, ainda não devidamente cientes de que o mundo está mesmo a mudar, acham que esta ajuda deve ser tratada como um empréstimo -para se pagar algures, num futuro próximo, gerando austeridade como a que recentemente conhecemos.

Lembram-se da dívida da Alemanha na I Guerra Mundial? Estes 4 países já não têm memória da violenta miséria criada nessa altura e do monstro que daí surgiu, Hitler.

Pior: ao contrário da Alemanha de 1914-18, desta vez nenhum país destruiu nada a ninguém. Todos estão a ser corroídos por uma pandemia-relâmpago. O fenómeno "repugnante", como disse António Costa, e bem, a propósito da Holanda, não está estancado.

Uma revolução em vez da depressão

Austeridade? É como perguntar se vai chover quando está à vista um furação de categoria 5.

Esta depressão económica tem todos os ingredientes para gerar uma revolução. E isso pode acontecer mesmo antes de um ano de crise coronavírus. Dependerá de vários fatores. Por exemplo, da tensão entre quem precisa desesperadamente de trabalhar versus a força policial de países em situações críticas de confinamento.

Só que esse não é problema de fundo. Lembram-se dos coletes amarelos franceses, ou dos protestos em muitos países (Chile, por exemplo) para forçar um novo equilíbrio económico? O grosso dos problemas vem de trás. Não há poupanças nem empregos suficientes e uma paralisação como esta piora a desigualdade. Basta olhar para as mortes desproporcionais da comunidade negra dos Estados Unidos para se perceber que algo pode acabar muito mal.

Enquanto os Estados puderem despejar dinheiro para que haja alimentos e tectos, a situação fica apenas latente. Se os países abrandarem os apoios (a começar pelos Estados Unidos, Brasil, e na Europa, obviamente, a França) o contágio da revolta propaga-se como o coronavírus pelo mundo.

De quantas "dívidas perpétuas" precisaremos para que isto se aguente?

Uma revolução de bancos falidos e offshores saneados

Os Governos querem fugir do ponto em que a paralisação económica contamina o sistema financeiro. A memória da crise de 2008 (ativos tóxicos) deu origem à crise das dívidas soberanas (países tóxicos). Tudo isto arrastou atrás de si bancos, empresas e milhões de desempregados.

O que sucederá se a depressão económica colapsar a resposta das empresas? Desta vez será impossível resgatar bancos. Não há democracia que resista a isso.

É exatamente neste ponto que o coronavírus pode gerar um "turning point", impondo um novo modelo económico. E que novo modelo é esse? Provavelmente uma nova economia onde a riqueza acumulada e parqueada em ativos e instrumentos financeiros é pura e simplesmente reduzida brutalmente, para evitar o estrangulamento financeiro das empresas e pessoas. Perdões de dívida a uma escala bíblica, com falências bancárias proporcionais.

Dívidas, juros, mercado imobiliário e rendas podem acabar por sofrer uma desvalorização colossal. Em simultâneo, para compensar, os valores parqueados nos offshores globais podem acabar por ser parcial ou totalmente canalizados a favor da crise humanitária global.

Com Trump isso não será possível, mas uma crise destas gera as mudanças mais súbitas. Veremos quem estará na Casa Branca no final do ano - e em muitos outros lugares decisivos.

Hoje podemos dizer, sem margem de erro, que a desigualdade está a destruir o ser humano e o mundo. E que a escala de produção e rendimento maximizada arrasa os recursos da Terra.

Em paralelo, para que servem tantos triliões parqueados em especulação? Qual o sentido final e legitimidade desta riqueza improdutiva?

Estas mudanças avassaladoras, porventura violentíssimas, estão à vista. A sua consumação já não depende da nossa vontade política ou económica. O mundo está suspenso na velocidade da ciência/inteligência artificial face ao vírus. Porque há uma imprevisível Revolução Coronavírus a dirigir-se a nós.

Tudo acabará bem?

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