As eleições só decidem uma coisa: qual o poder do Bloco

Vamos admitir que o PS fica abaixo dos 35%. Terá um resultado dececionante face às expectativas.

Abaixo dos 35% o PS está a milhas da famosa maioria e pode não ter votos suficientes para uma Gerigonça 2.0 com o PCP e o PAN - o mal menor para António Costa.

O pior é que um resultado abaixo dos 35% o coloca na dependência de uma maioria PS+Bloco de Esquerda. Que razão para não a fazer? Ora, o Bloco é claramente o partido que António Costa preferiria deixar à margem do Governo porque, de cada vez que negoceia, dirige o país mais para a esquerda dura, descentrando o PS.

O Bloco marca pontos quando consegue o que lhe interessa, mas mantém-se de fora da governação e chega às eleições como o mais feroz opositor. O melhor de dois mundos. Ainda por cima vai conquistando o eleitorado mais jovem, erodindo o futuro do PS. Quanto mais tempo aguentam os socialistas esta perda de vitalidade para o rival da esquerda?

Aliás, é curioso que Catarina Martins tenha aflorado a palavra "social-democrata" relacionando-a vagamente com o Bloco quando, na verdade, é uma cortina de fumo: não é o Bloco que está mais social-democrata, é a governação ao centro que está cada vez mais à esquerda.

O bom resultado do PSD pode ser uma boa notícia para os socialistas (desde que não sejam ultrapassados por sociais-democratas, claro). Porque Rui Rio é um estadista em comparação com Montenegro.

Costa tem razão em recusar um Governo de Bloco Central porque, de facto, abre-se espaço à esquerda e direita mais radicais e íman do voto de protesto.

Olhando, portanto, para o que será Portugal daqui a quatro anos - sendo aparentemente certo que António Costa não quer um terceiro mandato e tem uma vocação europeia - fica o quê?

Por isso mesmo, o que há de novo nestas eleições é a tentativa do Bloco em se afirmar cada vez mais como o "Syriza" português, ou seja, um partido que pode aspirar a ser poder, tal como Louçã o sonhou e Catarina Martins está a apresentar. Um partido das causas fraturantes e do Ambiente (daí as reações epidérmicas contra o PAN e o Livre). Mas essencialmente um partido que geracionalmente vai engolindo o PS à medida que o tempo passa - o mesmo que já anda a fazer com o PCP há alguns anos. Um partido para disputar a liderança em 2023 ou 2027.

Aliás, o Bloco é também já um ator do novo sindicalismo, o que lhe dá ainda mais estatuto e implantação social. Roubou mesmo ao PCP a propriedade da palavra "precariedade" - talvez a palavra que Catarina Martins mais repetiu ao longo dos últimos quatro anos. E não vai ficar por aqui.

Olhando, portanto, para o que será Portugal daqui a quatro anos - sendo aparentemente certo que António Costa não quer um terceiro mandato e tem uma vocação europeia - fica o quê? Depois da erosão de oito anos de poder, os novos líderes (Pedro Nuno Santos ou Mariana Vieira da Silva) pegam num PS de velho eleitorado e vencem um Bloco que nunca paga a fatura de estar dentro do sistema? Só mesmo se continuarmos num paraíso económico.

É por estas razões que António Costa preferia afastar-se de Catarina Martins; e também Catarina desejará, desta vez, ser oposição forte a um PS frágil, sobretudo se o PCP e o PAN ficarem entalados para darem a maioria ao PS.

A única coisa que pode travar os sonhos de Catarina é acabar por obter um resultado demasiado bom. Seria irónico que o poder tão dificilmente atingido acabasse finalmente a queimar-lhe as mãos.

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