Políticos e a perda de poder

Tanto faz olhar para um Mugabe ou para Merkel. O poder vicia quem o exerce. Largá-lo é um processo penoso. "Nenhuma despedida é tão difícil com a despedida do poder" dizia o aristocrata, bispo, ministro e diplomata francês Talleyrand e esse devia sabê-lo: teve tempo para observar muita gente à sua volta que perdeu o poder. Talleyrand exerceu cargos em muitos regimes na sua vida política, desde o clero antes da revolução francesa (chegou a ser ordenado bispo) até ao reinado de Louis-Philippe, passando pela revolução e Napoleão (que lhe chamou um "merdas em meias de seda" quando se apercebeu de que Talleyrand mantinha contactos secretos com a Rússia). Mas não é necessário ser-se um Talleyrand e sobreviver a meia dúzia de regimes para se perceber a dificuldade que é um poderoso largar o seu lugar. Ao ponto de muitos políticos e governantes da atualidade se sentirem tentados a agir como Napoleão e voltar do exílio para retomar as rédeas do seu "império".

Uma coisa é certa: os regimes democráticos contemporâneos, ou formalmente democráticos, têm dificultado a vida a quem se agarra ao poder. Para o líder norte-coreano, que já vai na terceira geração de uma dinastia comunista, basta de quando em quando mandar fuzilar um tio, irmão ou outro rival que veja no horizonte. Mas políticos de regimes mais moderados são obrigados a recorrer a truques, artimanhas e expedientes que sejam aceitáveis dentro da letra das constituições. Putin inventou para si a alternância entre o exercício do cargo de presidente e o cargo de primeiro-ministro. A estratégia para se manter no poder, independentemente do cargo que exerce, já resulta há 18 anos sem violar formalmente a Constituição. Erdogan, na Turquia, recorreu a um referendo para ampliar e assim prolongar o seu poder. Maduro teve de ir um pouco mais longe e convocar uma assembleia constituinte na Venezuela. Também Merkel, na Alemanha, está disposta a negociar todas as soluções de governo, desde que se consiga manter como chanceler. Como não tem maioria para governar sozinha, começou por tentar uma coligação com o partido dos Verdes e os senhores do FDP (a sigla é mesmo essa e corresponde ao programa). Falhadas as negociações, vira-se agora para o SPD para tentar reeditar uma grande coligação. Mas, se isso não funcionar, está disposta a ficar como líder de um governo minoritário. Tudo menos largar o poder ou coligar-se com a extrema-direita, por enquanto pelo menos.

Para muitos políticos a perda de poder é como a queda num buraco. Os ex-poderosos sentem-se vazios, a sua vida perde sentido. Psicólogos falam de "depressões reativas", que surgem com a perda de poder.

Também em Portugal são várias as reações às perdas de poder. O ex--primeiro-ministro Passos Coelho deu durante quase dois anos sinais de não ter realmente interiorizado que já não era primeiro-ministro. Sócrates, a viver da ajuda altruísta de vários empresários, afundou-se na tentativa de se reinventar como intelectual. No caso de Pedro Santana Lopes a perda do poder e a queda da cadeira de primeiro-ministro tem mais episódios. Santana começou, primeiro, por se tornar primeiro-ministro-faz-de-conta num reality show de Artur Albarran na televisão (no final recebeu pelo seu desempenho um cheque em formato gigante das mãos do apresentador). O comum mortal pensaria que esse tinha sido o fim do artista enquanto político. Mas não. Isso seria subestimar o apego ao poder de quem uma vez o experimentou. Numa altura em que Donald Trump era só um pesadelo longínquo, Portugal estreava-se na modalidade "estrela da TV torna-se chefe de governo". E conseguiu-o mesmo sem eleições. Para isso só foi necessário um outro primeiro-ministro, seu antecessor, entregar voluntariamente o poder em Lisboa (para se ir agarrar a outro, muito maior e muito mais bem pago, em Bruxelas). Agora Santana volta do exílio determinado a fazer de Napoleão, na esperança de se aguentar mais do que os míticos cem dias do segundo reinado do pequeno corso que terminou em Waterloo.

Correspondente de Der Freitag e En-24

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Donald Trump continua com níveis baixos de aprovação nacional, mas capacidade muito elevada de manter a fidelidade republicana. A oportunidade para travar a reeleição do mais bizarro presidente que a história recente da América revelou existe: entre 55% e 60% dos eleitores garantem que Trump não merece segundo mandato. A chave está em saber se os democratas vão ser capazes de mobilizar para as urnas essa maioria anti-Trump que, para já, é só virtual. Em tempos normais, o centrismo experiente de Joe Biden seria a escolha mais avisada. Mas os EUA não vivem tempos normais. Kennedy apontou para a Lua e alimentava o "sonho americano". Obama oferecia a garantia de que ainda era possível acreditar nisso (yes we can). Elizabeth Warren pode não ter ambições tão inspiradoras - mas tem um plano. E esse plano da senadora corajosa e frontal do Massachusetts pode mesmo ser a maior ameaça a Donald Trump.