Venha o Mundial!

No dia em que a Sra. Merkel visita Lisboa e se encontra com o Sr. Costa, não vamos falar de política, vamos falar de futebol. Por mais que nos custe, vamos tentar esquecer por um instante os hooligans, a violência, as crises, as birras, as lutas pelo poder, as dívidas, as transferências astronómicas, os casos Cashball, e-mails, Apito Dourado ou os esquemas de corrupção dos Srs. Blatter, Teixeira e Becken-bauer.

Vem aí o mês de junho e, em todos os anos pares, significa que está prestes a começar um grande torneio de futebol. Pessoalmente, neste ano, o Mundial na Rússia tem um sabor muito especial porque as minhas duas seleções preferidas entram em campo com insígnias vitoriosas nas camisolas: A Alemanha é campeã do mundo e Portugal é campeão da Europa! Sei que as hipóteses são escassas, mas se tudo correr na perfeição haverá uma final luso-alemã onde a Sr. Merkel volta a encontrar-se com o Sr. Costa. Tenho o forte desejo de que tanto os tugas como os germânicos cheguem à final, mas ao mesmo tempo rezo para que as duas seleções não se cruzem, porque os jogos entre estes dois países começam a ser um tumulto emocional demasiado confuso para a minha alma.

Não foi sempre assim. Até ao outono de 1985, quando Carlos Manuel marcou um golo de vitória fabuloso num jogo de qualificação entre a Alemanha e Portugal, não sabia onde este país se localizava. E, pouco depois, voltei a esquecer-me porque a seleção portuguesa simplesmente não conseguiu transformar o muito talento futebolístico que tinha em resultados concretos. Naturalmente, torço pela seleção alemã, e fica na memória a vitória do Mundial de 1990, pois estávamos a escassos meses da reunificação de um país dividido durante mais de 40 anos em dois blocos políticos.

Porém, nunca tive a febre patriótica do futebol, em que pomos bandeiras nos carros e festejamos nas ruas pintados com cores nacionais. Talvez porque assisti a quase todos os Mundiais e Europeus no estrangeiro: os meus pais gostavam de viajar pela Europa. Logo que chegavam as férias de verão, preparávamos a nossa carrinha pão de forma, e ainda de noite arrancávamos e seguíamos viagem deixando a Alemanha para trás.

Mas não fui o único da minha geração que sentiu uma certa desconfiança em relação a tudo o que tinha que ver com uma Alemanha patriótica, talvez porque a herança catastrófica dos nazis parecia bem mais presente então do que nos dias de hoje. Tinha amigos alemães que torciam pela Argentina, pelo Brasil ou pela Holanda, o que facilitou a escolha das equipas, quando jogávamos os Mundiais de futebol nos jogos da Super Nintendo, pois assim não havia dúvida sobre quem ficava com a seleção alemã.

Portugal só começou a entrar no lote das equipas favoritas, nos jogos de computador, depois do Euro 2000. Nessa altura, estava a fazer um estágio no escritório do correspondente do Frankfurter Allgemeine Zeitung em Madrid e poucos dias antes do jogo entre Portugal e Inglaterra (3-2) fiz uma curta visita a Lisboa.

As minha antenas estavam mais afinadas, e, quando vi aquele fabuloso jogo de Figo e companhia, o bichinho entrou na minha alma futebolística, para ficar! Isto mesmo quando poucos dias depois Sérgio Conceição marcou um hat trick contra a Alemanha e ditou o fim pouco glorioso da carreira de Lothar Matthäus na seleção alemã.

Lembro-me de que contactámos Manuel Alegre e que lhe pedimos para explicar aos leitores do jornal o segredo do futebol português. Os responsáveis da federação alemã não leram o texto: demorou anos até a Alemanha chegar a um nível técnico parecido com as capacidades daquela seleção portuguesa.

Desde que Joachim Löw está no comando da seleção alemã, a equipa joga um futebol muito mais atrativo e recolhe os frutos de muito trabalho, ganhando o título mundial há quatro anos. Ao mesmo tempo, parece que, no que respeita ao futebol, os alemães começaram a viver um patriotismo pacífico e mais ou menos saudável.

Continuo a torcer pela seleção alemã, mas o facto de estar a viver a 2500 quilómetros da Alemanha faz que sinta um certo distanciamento das emoções vividas nos jogos de futebol da Nationalmannschaft. Afinal estou num país onde muita gente tem uma relação íntima com a sua seleção e para mim chegam as emoções vividas nos jogos de Portugal para viver um Mundial estimulante. Como dizia Goethe: "Duas almas habitam no meu peito..." Felizmente, estamos só a falar de futebol!

*jornalista alemão, a trabalhar em Portugal para a Deutschlandfunk

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