Uma nova ideia para a Europa?

Há mais de um século, mais precisamente à 11.ª hora do 11° dia do 11º mês de 1918 acabou a 1ª Guerra Mundial. Uma guerra que começou por acasos e teimosias, onde lutámos em longas linhas de trincheiras que cruzaram a Europa, onde usámos novas tecnologias e onde morreram 37 Milhões de pessoas.

Depois veio a paz, e o horror do que vimos levou-nos a anunciar que tínhamos sobrevivido à "guerra para acabar com todas guerras". Mas a paz foi igualmente egoísta, teimosa e míope e menos de uma geração depois estávamos novamente em guerra. Uma guerra mais violenta, mais tecnológica, mais mortífera, que nos fez conhecer o mal absoluto e onde morreram 80 milhões de pessoas.

A nova paz de 1945, que nasceu nos campos de batalha e nos campos de concentração, foi uma paz diferente. Foi uma paz generosa, que juntou inimigos numa casa comum, que promoveu a convivência, o conhecimento, a colaboração e a concórdia. Foi uma paz que olhou pelos vivos de ambos os lados das trincheiras e que aprendeu com os erros de 1918.

Foi também uma paz que forjou laços de solidariedade entre povos e entre líderes que, tendo sobrevivido à bestialidade e à cegueira, tiveram a inteligência e a visão de colocar em conjunto os mecanismos do crescimento e da cooperação. Esta paz solidária cresceu rapidamente e, com avanços ambiciosos e recuos estratégicos, apoiados na memória e na história, cumprimos a promessa de 1918: havíamos sobrevivido a uma guerra que acabara com todas as guerras na Europa.

Pelas mãos de gigantes ou apoiados nos seus ombros, trocámos as fronteiras da guerra por um espaço de liberdade e de justiça que nos permite hoje sair das margens do Atlântico e chegar às fronteiras da Rússia sem ter que mostrar um passaporte ou mudar de moeda. A guerra tornou-se numa memória e a paz numa certeza.

A essa ideia de paz, que cresceu à sombra da Cortina de Ferro que se estendeu durante décadas, na expressão de Churchill, de "Stettin no Báltico, a Trieste no Adriatico", seguiu-se uma nova ideia de Liberdade, igualmente poderosa e mobilizadora, que abraçámos numa noite inesquecível de Novembro em 1989 em Berlim quando, sobre os destroços do Muro que a separava, a Europa festejou o seu regresso à casa comum.

O tempo não para e quando a História nos bateu novamente à porta na década de 90 do século passado em Sarajevo, ameaçando a paz de 1945 e nos desafia hoje à luz dos novos populistas, ameaçando a liberdade de 1989, pretendemos que nada mais são do que uma bizarria que não fomos, nem somos, capazes de perceber e que não nos parecem mobilizar.

Que nova ideia nos levará a encontrar novamente a grandeza das ideias e a coragem de moldar o mundo? Talvez a causa que milhões de pessoas, nomeadamente a geração que irá herdar o gestão dos Governos, das Organizações e da Sociedade abraça com entusiasmo: a causa do combate às alterações climáticas.

Potencialmente mais destrutiva que a guerra e certamente grande de mais para ser gerida por Estados ou organizações individualmente, o combate às alterações climáticas exige o mesmo grau de colaboração e solidariedade que estão no centro do projeto europeu há 70 anos.

Esta nova ideia de Europa - a campeã do combate às alterações climáticas, a defensora de um desenvolvimento social e de um crescimento económico partilhado por todos e a promotora de um sistema internacional multilateral e ordenado - não é nova. É a mesma procura da paz que nos reuniu em 1945 e da liberdade que redescobrimos em 1989.

Investigador Associado do CIEP / Universidade Católica Portuguesa

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