Um "Avante Russo" no Mali. Possibilidade ou ilusão?

A começar, uma informação importante e validada. O ex-PR Ibrahim Boubakar Keita (IBK), encontra-se bem de saúde, tendo sofrido um Acidente Isquémico Transitório (AIT) que, de forma simplista, se pode considerar como um mini-AVC. Ainda hospitalizado, mas em liberdade, já que passou por um mini-confinamento preventivo e sob tutela militar, a partir de 18 de Agosto, o dia do golpe, IBK recupera do referido AIT, encontrando-se livre de perigo e livre também do isolamento a que foi obrigado durante 10 dias.

Muito se tem especulado sobre a possibilidade de uma interferência russa no decorrer dos acontecimentos no Mali, havendo razões que o justifiquem, mas que também poderão não mais passar de um "pensar desejoso", quando os relatos locais dos esclarecidos, nos remetem para o óbvio, uma ausência americana e um crescente sentimento anti-francês.

Mas voltando aos desejos e aos cenários que, por defeito profissional, os Politólogos prospectivam em permanência, há elementos que nos remetem para uma quase inevitabilidade da "mão invisível" russa, em todo este processo.

Em 1.º lugar, a presença de bandeiras russas nas crescentes manifestações de rua, desde há 2 meses a esta parte, o que nos diz mais sobre a acção e empenho do jovem e certamente ambicioso 1.º Secretário da Embaixada russa em Bamako, do que sobre um alinhamento russo com os acólitos do Imam Dicko, mais um virtuoso formado na Arábia Saudita, que prega a moral e os bons costumes. Afinal as bandeiras têm que vir de qualquer parte;

Em 2.º lugar, a recente chegada da Rússia de dois dos principais actores deste golpe, os Coronéis Camará e Diaw, onde estavam precisamente a ter formação;

Em 3.º lugar, o Embaixador russo foi o primeiro diplomata a estar em Kati, na Academia Militar onde se "carregou no botão" para tudo acontecer, onde se reuniu com os militares que viriam a formar o Conselho Nacional para a Salvação do Povo (CNSP). Salvação é em tudo islâmico, mas Povo é, quer queiramos ou não, da Esquerda do antigamente, das Democracias Populares;

Em 4.º lugar, um apoio russo à sublevação maliana, criaria um problema à União Europeia (UE) em África, desviando os olhares desta dos acontecimentos na Bielorrússia e de mais um opositor a Putin no hospital, obrigando a EU a envolver-se e a investir ainda mais no Sahel, na ânsia de evitar uma mais que provável partição entre Norte (Azawad) e Sul, o Mali sub-sahariano;

Em 5.º lugar, o Mali é o "Centro Geodésico" do Sahel e ter um Mali tricolor russo, é fazer com que os restantes "satélites" caiam voluntariamente na sua esfera de influência. Digo voluntariamente, já que conheço muito bem a inveja humana primária dos africanos, sobretudo dos islamizados, face ao Homem branco, "que as minhas beterrabas são tão boas quanto as malianas", dirão imediatamente todos os vizinhos, enquanto se vão acotovelando no beija-mão;

Em 6.º lugar, sendo este para mim o principal factor que me faz passar todo o raciocínio de desejo a dado adquirido, é o investimento que a Rússia faz na Líbia e no Egipto também. Correndo-lhes bem a guerra na Líbia e, para isso, basta assegurarem chão firme na Cirenaica, passarão a ter mar e terra suficientes para projectarem força no sentido do Sahel, sendo que aliados com o Egipto Sissi, terão também o Canal do Suez à disposição para fazerem do Mar Vermelho outra plataforma complementar a leste, para o mesmo fim. Que jeito lhes daria Cabo Verde e/ou a Guiné-Bissau, para fecharem este triângulo a Ocidente.

Em conclusão deste bloco de possibilidades, os pontos 5.º e 6.º bastam para qualquer estratega, à primeira, ficar convencido de que, de facto, há um plano russo para dominar esta África vazia de rumo e plena de conflitos e, cujas populações até já poderão dizer, "isto já lá não vai só com um Kadhafi, serão precisos dois ou três!"

Perdemos todo este entusiasmo pela teoria da conspiração ao falar com os locais esclarecidos que nos dizem:

Em 1.º lugar, tem que ver que ter militares malianos em formação na Rússia, obedece a um quotidiano normal e, tanto têm na Rússia como noutros países amigos. Chegarem uma semana antes do golpe, também não obriga a uma ligação directa, mas a uma provável coincidência, dentro da normalidade desse mesmo quotidiano. Afinal o Mali é mais cosmopolita do que os europeus pensam;

Em 2.º lugar, a presença de bandeiras russas nas manifestações também é relativa. O que é que queria? Que a população se identificasse com a América de Trump? Já viu o "oceano de diferenças" entre as posturas de um Trump e de um Putin? Por outro lado, essas bandeiras são mais um reflexo de um sentimento anti-francês que pró-russo;

Em 3.º lugar e, voltando aos militares que compõe o CNSP, onde estão os dois regressados da Rússia, também lá há militares com formação nos Estados Unidos da América, em França, na Alemanha. Isso significa que há interferência desses países? Claro que há interesse desses países todos no Mali, mas isso não significa obrigatoriamente interferência;

Em 4.º lugar, se reparar na composição do CNSP pela perspectiva étnica, cada membro, para além de uma especialização tem também uma étnia diferente, o que significa que se trata de uma construção maliana, cuja nova geração castrense pretende não voltar a cair em erros primários anteriores. Não há interferência, o golpe é nosso!

Nada melhor que um maliano para falar do Mali, mas nada melhor também que um português para falar de África, sobretudo desta, que não nos é tradicional, onde não temos primos que mais tarde nos venham cobrar as verdades e lamentarem-se dos desejos locais por cumprir.

Politólogo/Arabista

www.maghreb-machrek.pt

O Autor escreve de acordo com a antiga ortografia.

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