Trump, o mestre do ódio

Trump continua a horrorizar as pessoas com os seus ataques racistas chocantes e a sua desonestidade latente. As sondagens favorecem cada vez mais Clinton e muitos analistas sugerem que a corrida presidencial está praticamente decidida. Mas faltam três meses para as eleições e muita coisa pode acontecer em três meses.

É possível que Trump se comporte de forma tão inaceitável que a lista dos líderes republicanos que o repudiam abertamente aumente até abranger a maioria da elite do Partido Republicano, mas é pouco provável. Porquê? Por várias razões.

Os que são candidatos à reeleição precisam do apoio de Trump para vencer, por isso o seu objetivo político pessoal domina as suas decisões. Outros vão apoiar Trump porque o próximo presidente vai nomear pelo menos um juiz do Supremo Tribunal, atualmente dividido entre conservadores e liberais, talvez mudando o ramo judicial do governo para o lado liberal durante muitos anos. Poucos republicanos podem aceitar isso.

Os líderes republicanos estão ainda apanhados na agenda do seu partido, que permitiu o sucesso de um candidato racista e xenófobo - o partido não fez nada quando Trump acusou de forma virulenta Obama de não ter nascido nos EUA. Pelo contrário, os republicanos têm incentivado a polarização do eleitorado americano, promovendo um nível de desconfiança e ódio à oposição que leva muitos eleitores a acharem que qualquer alternativa é melhor do que a continuação das políticas da Administração Obama. E querem ignorar a fraqueza inegável do seu candidato para garantir que Clinton não é eleita.

É uma triste constatação sobre o estado da política perceber que uma parte substancial do eleitorado e um dos grandes partidos estão mais motivados pelo ódio à oposição do que pelos desafios que os EUA e o mundo enfrentam. Trump tem sido um mestre a alimentar-se de e a espalhar o ódio, e assim continuará sem dúvida na sua campanha.

Para além de atrair os que verdadeiramente odeiam Obama e Clinton, Trump também apelou aos que se sentem abandonados pelo sistema, que sofrem com a globalização, à classe média que vê os seus rendimentos estagnados há décadas. Que ironia que o partido que sempre representou os interesses dos ricos - através das suas políticas fiscais e sociais (baixar os impostos aos mais ricos e reduzir os benefícios sociais), através da sua defesa de Wall Street e das multinacionais americanas - seja agora o partido que mobiliza grande parte da classe média branca, aqueles que têm sido ignorados pelos dois partidos. Um dos poucos aspetos positivos da candidatura desastrosa de Trump é que o Partido Republicanos talvez venha a seguir um novo rumo, comece a defender a classe média esquecida, criando políticas para proteger os que sofreram com a globalização.

Bernie Sanders também apelou, com um sucesso considerável, aos desprivilegiados, inclusive alguns dos que Trump seduz. Mas o apelo positivo de Sanders, propondo medidas para ajudar a classe média, tem sido muito menos bem-sucedido do que o de Trump, que mobiliza as pessoas através do ódio ao outro.

Estou horrorizado com o que está a acontecer nos EUA, mas é impossível ignorar o fenómeno Trump.

Sabemos que os EUA são muitas vezes os precursores de eventos que mais tarde chegam à Europa. O sucesso de Trump é um aviso assustador para a situação política na Europa. Nas mãos de um demagogo, manter acesas as chamas do ódio é mais eficaz para mobilizar aqueles que estão descontentes com os seus governos do que vender-lhes os benefícios da globalização, da partilha e da cooperação. A recente votação do brexit pode ser vista deste ângulo. E o que é mais assustador no fenómeno Trump é que quando o ódio se torna o sentimento dominante de um grande número do eleitores, as consequências podem ser devastadoras, como devíamos saber bem aqui na Europa.

As críticas feitas a Clinton parecem suaves comparadas com os perigos de Trump, mas mesmo assim várias sondagens mostram que mais de 50% dos americanos não gostam dela, não confiam nela. Porquê? Sofre com vários fatores, muitos dos quais não têm nada que ver com ela enquanto pessoa, inclusive a crescente polarização do eleitorado americano, de que falámos atrás.

Hillary é uma figura pública há 25 anos, todos a conhecem e têm uma opinião sobre ela. Faz parte do establishment que governa os EUA há décadas, numa altura em que muita gente, não só os que votaram Trump e Sanders, quer mudança. É muito difícil para ela mostrar uma cara nova.

Ao longo da sua carreira, Hillary defendeu os oprimidos, contribuiu ativamente para melhorar as condições de vida dos afro-americanos, dos latinos, dos muito pobres, e vai receber apoio da larga maioria deste eleitorado. Mas as suas próprias ações em seu favor alienaram muitos eleitores da classe média branca. Muitos eleitores do sexo masculino odeiam-na por isso, por derrubar o seu mundo de domínio masculino. Curiosamente muitas mulheres também sentem antipatia por ela. Para conseguir os seus feitos incríveis, Clinton precisou de ser ambiciosa, dura, resistente, inteligente, trabalhadora, uma viciada em trabalho, impassível aos ataques constantes. Estas são características que não a tornam querida juntos dos eleitores americanos. As presidenciais americanas são um concurso de popularidade, este é o país que elegeu duas vezes George W. Bush e Reagan: em termos de popularidade, a personalidade de Hillary simplesmente não conquista simpatias.

Mas são essas mesmas características da sua personalidade que farão dela uma grande presidente. O seu desafio nesta campanha é convencer americanos suficientes, sobretudo as mulheres, que vai ser capaz de levar a América numa direção positiva.

Esta é a minha opinião, não necessariamente a dos Democratas no Estrangeiro.

Presidente dos Democratas no Estrangeiro - Portugal

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