Trump encontra o homem de Davos

Como diz o ditado, "se a montanha não vai a Maomé, vai Maomé à montanha". Com a decisão de participar na reunião do Fórum Económico Mundial deste ano em Davos, na Suíça, o presidente dos EUA, Donald Trump, parece estar a levar a mensagem à letra (embora, sem dúvida, recuasse perante qualquer ligação entre o profeta Maomé e a sua pessoa).

Para os líderes empresariais, financeiros e políticos mundiais que se reúnem em Davos todos os anos em janeiro, a notícia de que Trump se juntaria a eles neste ano deve ter sido um choque, para não dizer mais. Grande parte da elite global, representada pelo grupo de Davos, sente um profundo desprezo por Trump, e é provável que o seu desdém se tenha aprofundado com os recentes comentários racistas de Trump sobre os "países de merda".

No entanto, a conferência terá, sem dúvida, a sua quota de exibições obsequiosas destinadas a apelar à vaidade de Trump, com os participantes, à vez, a adulá-lo e a apoiá-lo enquanto ele tenta desajeitadamente defender o indefensável, a começar pela sua política da "América primeiro". Afinal, esta é a mesma gente que se curvou perante o presidente chinês Xi Jinping no ano passado, quando ele se posicionou fraudulentamente como o novo campeão mundial da globalização e da ordem internacional com regras estabelecidas.

Alguns dos líderes mundiais que estão em Davos têm fortes incentivos para bajular Trump. A primeira-ministra britânica Theresa May, em particular, pode estar ansiosa por apaziguar Trump, depois de a perspetiva de manifestações em massa o ter impedido de participar na cerimónia de inauguração da nova Embaixada dos EUA em Londres. Com o brexit a aproximar-se - e a perder apoio interno - o Reino Unido não se pode dar ao luxo de deixar deteriorar mais a sua "relação especial" com os Estados Unidos. O governo de May tenta desesperadamente acreditar na perspetiva, por muito ilusória que seja, de que Trump possa oferecer um bom acordo comercial ao Reino Unido.

Mas, por muito que Trump anseie por um bom bajulador, isso não parece ser uma razão convincente para ele participar na reunião do FEM em Davos. Não há escassez de lambe--botas sem espinha dorsal em casa, tanto no gabinete do presidente, como na liderança republicana do Congresso. No início deste mês, o senador Tom Cotton do Arkansas e o senador David Perdue, da Geórgia, tentaram defender os comentários descaradamente racistas de Trump alegando, primeiro, que não se lembravam de o ouvir dizer shithole [buraco de merda] e, mais tarde, que ele deveria ter dito antes shithouse [latrina]. Seria possível basear uma defesa numa distinção mais sem sentido?)

Nem todos em Davos estão preparados para assumir essa abordagem. O presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel, tenderão provavelmente a aparecer o mínimo possível quando Trump estiver por perto.

Macron até agora tem lidado habilmente com Trump: ele apaziguou o déspota íntimo que vive em Trump, convidando-o para o desfile militar do Dia da Bastilha no verão passado, mas também o desafiou publicamente de várias formas, desde um ostentoso aperto de mão no primeiro encontro dos dois até à defesa do acordo nuclear do Irão. Quanto a Merkel, os seus encontros tensos e angustiados com Trump são quase tão lendários como os seus encontros gelados com o aparente herói de Trump, o presidente russo Vladimir Putin.

Não se sabe como os líderes africanos em Davos - muitos dos quais denunciaram publicamente os comentários de Trump, exigindo desculpas e retrações - reagirão ao homem em carne e osso. Da mesma forma, também não se sabe se os jornalistas terão respeitosamente tento na língua ou se atacarão Trump com o tipo de artilharia que Peter Hoekstra, o novo embaixador dos EUA na Holanda, tem vindo a receber da imprensa holandesa. (Hoekstra tem estado a ser obrigado a responder pelas suas mentiras de 2015 de que o "movimento islâmico" tinha trazido o caos para o país, que os políticos holandeses estavam a ser queimados pelos islâmicos e que tinham surgido no país "zonas interditas" dominadas pelos muçulmanos.)

Dado o risco de Trump vir a enfrentar o desdém e até mesmo a zombaria absoluta de alguns participantes continua por esclarecer o motivo que o levou a decidir participar na reunião de Davos. A única razão que eu consigo ver é que ele planeia representar para os seus apoiantes internos, exibindo plenamente o seu nacionalismo económico, as suas políticas de imigração xenófobas, a antipatia pela imprensa e o desprezo pelas instituições internacionais. Se os seus comentários forem recebidos com vaias ou silêncio, ele explicará orgulhosamente no Twitter a razão: ao contrário do seu antecessor, Barack Obama, ele está realmente a defender os interesses dos Estados Unidos.

Na semana passada, o senador republicano Jeff Flake, do Arizona, condenou Trump por usar a frase infame de Joseph Estaline "inimigos do povo" para descrever a imprensa livre. Flake (que, como muitos outros republicanos, deixará o Congresso neste ano) estava, obviamente, a ser muito literal. Saindo da boca de Estaline, a frase, apoiada pela força total e temível do aparelho de segurança interna do Estado soviético, foi uma sentença de morte para milhões. Quando as mesmas palavras são proferidas por Trump, um objeto de suspeição para grande parte do aparelho de segurança dos EUA, elas tornam-se apenas mais uma parte do espetáculo narrativo através do qual ele canaliza as lealdades e as antipatias dos seus partidários.

Para Trump, ir a Davos não é mais nem menos do que levar o espetáculo para a estrada. Assim, pedindo desculpa a Osip Mandelstam, recomendo aos participantes da conferência uma adaptação de "O Montanhês do Kremlin" (também conhecido como "O Epigrama de Estaline"), o poema satírico que custou a vida a Mandelstam.

O Montanhês da Casa Branca

As nossas vidas já não sentem o chão
debaixo delas.
As nossas palavras já não são
ouvidas a dez passos.
Mas sempre que há um fragmento
de conversa ou tweet
Isso desperta o montanhês
da Casa Branca.
os dez dedos minúsculos nas suas
mãos gordas,
as suas palavras tão maliciosas
quanto imponderadas,
a enorme raposa aninhada que
cobre a sua cabeça,
o brilho cor de laranja que dá cor
à sua pele.
Rodeado de uma escória de
assessores lambe-botas
Ele brinca com os tributos
dos semi-homens.
Um saúda, outro mia, um terceiro
choraminga.
Ele pica o seu dedo mindinho
e explode sozinho.
Ele vomita incitamentos em linha
como ferraduras,
Um para a virilha, um para a testa,
têmpora, olho.

Professora de Relações Internacionais na New School e membro sénior do World Policy Institute

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