Será desconhecimento? Será descaso?

Teve lugar, de 29 de abril a 3 de maio de 2019, em Nova Iorque, a Sessão do Grupo de Especialistas em Nomes Geográficos das Nações Unidas (UNGEGN), primeira com organização e métodos de trabalho novos. O UNGEGN é um dos sete grupos de especialistas que compõem o Conselho Económico e Social da ONU, prova da importância da padronização de nomes geográficos. Na Sessão participou a Divisão dos Países de Língua Portuguesa em Nomes Geográficos (DPLPng), uma das 24 do UNGEGN, criada em 2007, com o objetivo de padronizar os nomes geográficos dos países que a compõem. Em 2017, decorreu do Curso em Toponímia promovido pelo UNGEGN e pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) uma reunião informal de especialistas da maioria dos países da CPLP, incluindo Portugal, no sentido de reforçar a DPLPng, consolidando a sua participação junto da ONU.

Entre os nomes geográficos avultam os topónimos, nomes próprios de entidades geograficamente relevantes, como Serra de Montejunto, Lisboa ou Washington. Se o estudo da toponímia é importante (e.g. para o conhecimento da história das migrações e dos padrões de intercâmbio cultural), a sua padronização (fixação da forma escrita) é crucial para tarefas de cartografia, produção de gazetteers (diretórios geográficos), ordenamento do território, geolocalização, estatística, entre outros.

Se em Portugal, país pequeno e antigo, maioritariamente monolingue, a padronização de topónimos internos não levanta hoje questões de monta, o mesmo não acontece em países jovens como os demais de língua portuguesa, em geral maiores, onde convivem muitas línguas, comunidades, tradições, histórias e estórias. Outrossim, Portugal participa de organizações internacionais de planeamento territorial para as quais necessita de produzir gazetteers padronizados de nomes nacionais (endónimos) e as instituições nacionais confrontam-se diariamente com a carência de formas escritas padronizadas dos topónimos de países com outras línguas (exónimos), especialmente os escritos com outros alfabetos e sistemas de escrita, que carecem de transliteração.

Na padronização de topónimos relevam questões económicas, sociais e geográficas e muitas destas tarefas são levadas a cabo por geógrafos, cartógrafos, estatísticos, etc. Contudo, da padronização relevam também questões de natureza linguística (fonológica, morfológica, ortográfica), a ser resolvidas por técnicos especializados, ou seja, linguistas com formação em toponímia. Em Portugal, trabalho relevante foi realizado no âmbito do Vocabulário Toponímico (http://voc.cplp.org/index.php?action=toponyms) e existem linguistas com formação em toponímia, nomeadamente enquanto membros do Working Group on Toponymic Data Files and Gazetteers, do próprio UNGEGN.

Todavia, apesar da importância que a padronização da toponímia tem para o enriquecimento da língua portuguesa e sua capacitação para fazer face à sua internacionalização, apenas Brasil e Moçambique têm prosseguido os seus trabalhos como Divisão no seio da ONU, em termos de educação toponímica e cooperação técnica, como se lê no relatório da última reunião da DPLPng. Os restantes países, incluindo Portugal, não se fizeram representar nem enviaram os respetivos relatórios.

No rescaldo das efusivas celebrações do Dia da Língua Portuguesa, recheadas de manifestações de desvelo e comprometimento, cabe questionar a omissão de Portugal. Será desconhecimento? Será descaso? Desconhecimento não é, certamente, e o descaso, penso, não caberia aqui.

Professora Auxiliar da FLUL e Investigadora do CELGA-ILTEC

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