Ser e estar numa cidade

240 minutos. É este o tempo para 4.000 pessoas percorrerem o centro de Barcelona. "Vão, vejam, comprem e regressem". Aproximadamente 240 minutos, 4 horas. Sempre mais de 4000 pessoas. Há navios de cruzeiro com maior capacidade. E há sempre mais do que um navio a atracar multidões no meio das Ramblas. Estiveram em Barcelona? Objetivamente sim. E poderão riscar mais uma linha na lista de cidades e países visitados. Mas convém repetir a pergunta: "estiveram em Barcelona?".

Em português temos a felicidade de separar os verbos ser e estar. Ser e estar numa cidade são condições substancialmente diferentes. Nesta separação reside também a diferença entre a cidade cenário, aquela que é visitável e onde se pode "estar", e a cidade em que se vive. Com as vantagens e os problemas de todos os dias.

É muito difícil imaginar que se conhece uma cidade quando sobre ela não se pode iniciar uma frase com a palavra "amanhã". Porque amanhã o turista já não estará lá. Porque amanhã não irá recolher o lixo, nem contar o tempo que demora atravessar a rua, nem comprará o jornal local em busca de um texto curto que lhe anuncie mais uma possibilidade de entrevista para emprego.

O turista de 240 minutos corre. Move-se em linha reta atrás de um guarda-chuva com uma bandeira. Ouve, nuns auscultadores que traz pendurados ao pescoço, um relato do que os olhos não conseguem ver. Mastiga informação como comida processada, sem chegar a sentir a cidade.

Josep licenciou-se na Universidade Autónoma de Barcelona, tendo experimentado um semestre Erasmus em Aveiro e em Ghent. Comparou-me o caminhar dos turistas em Barcelona à rigidez de uma marcha militar. Organizado, frio, pragmático. Já o ballet nos passeios, metáfora de uma vida urbana rica tão ao gosto de Jane Jacobs, é uma expressão mais livre de amarras e menos presa a percursos pré-definidos ou a parágrafos de wikipedia urbana que entra pelos auscultadores.

Este zapping urbano - o exercício saltitante dos cruzeiros - ilustra bem a relação turística que se estabelece com as cidades. Passageira, temporária, superficial. Três palavras que contradizem a própria identidade urbana: o lugar da permanência, das trocas, da intensidade. Os assentamentos (palavra tão mais rica do que parece) unem indivíduos a um espaço. Assentar é muito diferente de atracar. Nas cidades-cenário é sempre hora de partir.

Ser e estar numa cidade são condições muito diferentes. 240 minutos não permite ser Barcelona, nem Lisboa. Não permite ser nenhuma cidade.

*cientista político, pro-reitor da Universidade de Aveiro

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