São-tomenses mostram "cartão amarelo" à ADI e Patrice Trovoada

Depois de uma renhida "guerra de números" nas redes sociais, o anúncio esta segunda-feira dos resultados preliminares pela Comissão Eleitoral Nacional (CEN) acabou por desfazer as expectativas quanto a uma eventual derrota da Ação Democrática Independente (ADI). O partido liderado por Patrice Trovoada venceu as eleições, ao alcançar 25 mandatos contra os 23 do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP-PSD), admitindo um possível namoro para constituir Governo com o Movimento de Cidadãos Independentes (MCI), nascido no sul de São Tomé, que conquista dois deputados pelo distrito de Caué.

Cai por terra o desejo do líder da ADI por uma maioria absoluta que delineou para mais quatro anos no poder. No entanto, observadores em São Tomé já fazem outras contas. A meu ver, pelos dados avançados pela CEN, Patrice Trovoada terá poucas probabilidades de constituir um novo executivo.

Um desejável entendimento com o MCI daria à ADI a garantia de uma maioria relativa de 27 deputados. Mas a vantagem está do lado do MLSTP-PSD, que já tem um "acordo de princípio" com a tripla PCD/UDD/MDFM, detentora de cinco mandatos, com a qual poderá constituir uma espécie de "geringonça à portuguesa", fazendo a maioria absoluta. Trata-se de um cenário embaraçador, com as duas lideranças a reclamarem vitória antecipada, antes do anúncio dos resultados finais.

O que fica claro, diante destes primeiros resultados, é que a maioria dos são-tomenses decidiu advertir Patrice Trovoada e mostrar-lhe o "cartão amarelo", numa forma de protesto à sua governação, quatro anos depois de ter sido colocado no poder como sinal de esperança. Quando, em 2014, regressou do exílio em Portugal, o filho do ex-presidente Miguel Trovoada prometeu fazer diferente e apresentar obra em infraestruturas, a reboque de financiamento externo. No entanto, o desemprego ainda é um flagelo, afetando sobretudo a camada jovem da população.

Nas últimas semanas, mesmo em pleno período de campanha eleitoral, o executivo de Patrice Trovoada dançou em inaugurações de várias empreendimentos, entre troço de estrada, abastecimento em energia a algumas localidades, lavandarias e postos de saúde. Ainda assim, apesar de tanta confiança na vitória, desta vez não conseguiu convencer cabalmente os eleitores.

Miragens à parte, é de se louvar a honestidade do líder da ADI ao ter admitido o "mau resultado" alcançado nestes escrutínios.

Entretanto, o que se questiona é se, no novo MLSTP-PSD, Jorge Bom Jesus tem condições para ser o próximo primeiro-ministro, apesar dos resultados que conseguiu neste curto período à frente do partido histórico?

Desgastado no tempo devido a clivagens internas, o MLSTP-PSD buscou forças no ex-professor e consegue renascer com os resultados agora alcançados, «mesmo sem grandes recursos financeiros para comprar consciências», como afirma o economista são-tomense, Alcídio Pereira, na sua análise a estas eleições.

Para os militantes incrédulos do passado, Jorge Bom Jesus parece ter conseguido nestas eleições legislativas, regional e autárquicas recuperar o lugar de liderança perdido com Aurélio Martins, depois de Manuel Pinto da Costa, Pósser da Costa, Rafael Branco e Jorge Amado.

A conquista da maioria nestas eleições legislativas, regional e autárquicas significa um voto de confiança do eleitorado desiludido com a liderança de Patrice Trovoada.

Não há dúvidas que a afluência às urnas foi inédita, ainda assim com a abstenção a rondar os 19 por cento. Nem o apagão na ilha de São Tomé impediu que os agentes das mesas de voto prosseguissem o seu trabalho até ao apuramento final. Os incidentes registados em Guadalupe, no distrito de Lobata, envolvendo a polícia ou os protestos da população de Rosema, no distrito de Lembá, a nordeste da ilha principal, que reivindicava água, energia e melhor estrada, podem não ter expressão relevante no conjunto deste processo eleitoral, mas conjugam para o ambiente de crescente descontentamento no seio dos são-tomenses.

Seja para a ADI como para o MLSTP-PSD coligados, os próximos quatro anos serão de muito trabalho para "arrumar a casa", de modo a colocar São Tomé e Príncipe na esteira de país atrativo ao investimento direto estrangeiro, incentivando iniciativas que possam gerar emprego e ter efeito na melhoria das condições de vida dos são-tomenses.

Uma nota a reter durante a campanha eleitoral prende-se com a deficiente cobertura destas eleições pela media nacional, em parte devido às falhas de energia elétrica em várias localidades. Mas, sobretudo, foi notória a ausência de debate entre os principais candidatos sob as rédeas da comunicação social estatal e/ou privada, nomeadamente da rádio e da televisão controladas pelo Estado. Por falta de tradição e cultura política para reflexão neste domínio, não foi visível o confronto de ideias, o debate de temas estruturantes essenciais e de propostas de governação capazes de elucidar o eleitorado.

Esta é uma das fragilidades da democracia são-tomense que ainda tem pela frente um longo caminho para crescer, ganhar maturidade e credibilidade.

Correspondente em Portugal da Rádio DW-África - Alemanha

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