Respeito e dignidade

O governo apresentou uma proposta aos Sindicatos Médicos preconizando que os médicos com mais de 55 anos passem a fazer serviço de urgência. No mesmo documento afirmam que as remunerações dos médicos aumentaram entre 15% e 20% nestes dois anos de legislatura. Estas e outras propostas e afirmações, contidas no protocolo negocial, não mostram qualquer abertura do governo, nem respeito pelos médicos nem pelos doentes e merecem a minha total reprovação.

Em primeiro, é falso que os médicos tenham sido aumentados nas suas remunerações. Pelo contrário. Os médicos, tal como muitos portugueses, foram espoliados (e continuam a ser) e os aumentos referidos correspondem apenas a uma reposição parcial do valor do nosso trabalho. De resto, o governo continua a acumular uma dívida de milhões de euros aos médicos, continuando congelada a progressão na carreira e, consequentemente, prejudicando-os gravemente nas suas reformas.

Em segundo, é profundamente lamentável que o governo venha propor que os médicos com mais de 55 anos passem a fazer serviço de urgência. Numa altura em que os médicos são brutalmente pressionados e explorados pelo poder instalado, em que a síndrome de Burnout e a responsabilidade não param de aumentar, em que a segurança clínica de doentes e médicos está cada vez mais ameaçada, é totalmente indigna e inaceitável a proposta apresentada. Pelo contrário, o governo devia preocupar-se com as pessoas e os doentes e, tal como já acontece noutros países, considerar a profissão de médico como de elevado risco e desgaste rápido.

De resto, o governo continua a ser impotente para resolver a grave insuficiência de capital humano no Serviço Nacional de Saúde (SNS), a não encontrar soluções ao nível das condições de trabalho para fixar os médicos, e em especial os jovens médicos, e outros profissionais, a não solucionar o grave problema das regiões mais periféricas, mais carenciadas e mais desfavorecidas. E os compromissos continuam à espera de melhores dias. Os exemplos são muitos e conhecidos. Os concursos médicos em tempo útil, a reforma da carreira médica, o excesso de burocracia informática, as listas de utentes por médico de família, os tempos inaceitavelmente curtos impostos à relação médico-doente, o acesso atempado à verdadeira inovação terapêutica, as autênticas reformas na saúde (hospitalar e serviço de urgência, saúde pública, cuidados continuados e paliativos, cuidados de saúde primários), uma política de saúde centrada nas pessoas e na qualidade, e muitos outros.

Em defesa dos doentes e da nossa profissão tenho a certeza que os médicos saberão dar uma resposta forte e adequada a mais uma ameaça à Saúde e Honra de todos nós.

Contem comigo para repor a verdade dos factos e lutar pela dignidade e pelos direitos dos doentes e dos médicos. E ajudar a defender algumas das maiores conquistas da nossa democracia, a liberdade de expressão, o respeito pela dignidade das pessoas, a solidariedade social e o Serviço Nacional de Saúde.

Exigimos respeito. Chega de manipulações.

Bastonário da Ordem dos Médicos

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