Relações UE-Índia. Nas prioridades de Presidência Portuguesa da UE

A próxima Presidência da UE e a prevista cimeira Índia-UE são uma oportunidade para se formalizar as bases de uma relação que poderá tornar-se intensa e com impacte para as duas partes, procurando complementaridades e sinergias.

Os tempos e as circunstâncias vão variando; claramente estamos no Século da Ásia. A China fez a sua aparição, afirmando-se poderosamente, com factos indesmentíveis na produção industrial e na construção de infraestruturas. Foi a fábrica do mundo e mexeu com todo o Ocidente e as suas prioridades de ação dentro e fora dos contornos nacionais.

Quem não se lembra das décadas finais do Século XX, com a África votada ao esquecimento? Foi lá a China e, logo a seguir, todo o mundo se assustou com o "perigo amarelo". Na África, após independências, só a Índia continuou com uma ação discreta mas contínua e eficaz, tanto nos tempos de bonança como nos de incompreensão da parte dos nacionalismos locais.

O poderio da China, as provocações em diferentes locais e o que se vislumbra do futuro fazem ver que nada é como dantes: surge a Rota da Seda, o Banco de infraestruturas, o Tratado Comercial de países asiáticos, etc. E presença pontual em variados países para os beneficiar com obras de infraestrutura, de comunicações, etc., com contrapartidas óbvias.

Perante isso, é inevitável um rearranjo das alianças para identificar os amigos com quem trabalhar, para benefício de todos e de cada um, e os que poderão ser ameaças para uma paz duradoura.

A cimeira EU-Índia vem num bom momento: países, antes poderosos e ricos, não podem viver como uma ilha murada e com um fosso à volta, sob pena de perderem importância e voz na cena mundial, abafados pelas forças ascendentes. Os países que prezam valores da democracia, liberdade, direito à vida, devem entender-se com os de valores afins, para se agigantarem na cena mundial, e promover a paz, a liberdade e uma vida humana digna, para todos.

A Índia, pela sua população e nível intelectual, pela história civilizacional, pela provas de colaboração com os vizinhos no seu desenvolvimento, pelo convivência com etnias, cores da pele e religiões, deve ser o primeiro alvo da aproximação.

Nota-se que estão a aproximar-se da Índia países como o Japão, a Austrália, o Vietname, as Filipinas, a Indonésia l, etc., para falar apenas de países asiáticos. Importa que a continue a afirmar-se pelas suas competências e realizações no plano social e económico, tecnológico e científico, para aglutinar países livres.

Que tipo de colaboração seria indicada entre a Índia e a UE em benefício mútuo e de terceiros que se lhes juntassem, procurando ser complementares?

A- Na indústria, pela necessidade de muitos postos de trabalho na Índia:
- A UE tem capital e tecnologia; a Índia é um amplo mercado com mão de obra disponível e preparada para todas as indústrias importantes para o país e para exportação.
- A Índia tem pesca abundante de sardinha, cavala, camarão, etc. Tem abundante produção de fruta variada e de qualidade, típica das regiões bafejadas por muito sol e calor.
- A UE poderia canalizar investimentos para a indústria de conserva, que embora funcionando bem deve ir muito mais além, para consumo interno, da UE e para exportação.

B- Colaboração em domínios técnicos avançados em que a UE e a Índia podem ganhar vantagens, ao antecipar o futuro:
- A Índia é potência nas TI-Tecnologias de Informação e "Enabled Services". Hoje dá trabalho directo a mais de 4,14 milhões de especialistas e indirecto a mais de 10 milhões. Uma colaboração Índia/UE poderia fazer avançar o sector com iniciativas de futuro. Em TI, em 2019, a Índia produziu $177 bn, dos quais exportou $136bn, destes mais de 60% para os EUA.
- No domínio de I&D, atraiu mais de 1600 multinacionais que fixaram centros de operações na Índia. Note-se que em 2004 não seriam 70 as MNC. Toda a actividade de I&D das multinacionais ocupa mais de 8,2 milhões de Investigadores(2018), e com bons resultados em patentes registadas. Fixaram-se na Índia por encontrarem investigadores preparados, a trabalhar árduamente, com método e disciplina, e a custos mais reduzidos que na UE.
- A Índia tem provas dadas na exploração espacial, colocando em órbita satélites de países terceiros (mais de 328 postos nas suas orbitas geoestacionarias, sendo 102 lançados num só foguetão).

C- No Ensino Superior e Técnico. Em conjunto podem ir muito longe:
- Apesar de a Índia ter 993 Universidades e ~50.000 Faculdades e Institutos, precisa de muitas mais Instituições de Ensino, nos domínios técnicos e universitários de alto nível científico, com curricula próprios. Isso evitaria que centenas de milhares de jovens Indianos, como hoje acontece, fossem estudar para a Europa ou EUA, com enormes dispêndios.

- Muito importaria ter cursos técnicos para indústrias avançadas e para as ocupações mais modernas, como a AI-Artificial Intelligence, LM-Learning Machines, Robótica, Análise de Dados, etc.

Apesar das vicissitudes e da longa travesia no caminho da pobreza, a partir da Independência a Índia veio a fazer progressos para alimentar a sua população, cuidar da sua saúde, dar-lhe instrução e formar muitos e bons especialistas em Medicina, Engenharia, Informática, Management, etc. Muitos deles emigraram para os EUA, ocupando aí posições de destaque nas grandes empresas, ou criando as suas empresas.

Em contraste, são patentes as dificuldades de alguns países de África de saírem do marasmo. Talvez por isso na Índia haja o desejo de apoiar os países africanos. Não será estranho o facto de ter havido uma corrente migratória da Índia para a África Oriental, durante dezenas de anos.

D- E os Governos Indianos foram tomando medidas nesse sentido. A UE poderia juntar-se ou fazer algoem paralelo:

- Desde o ano 2008 realiza-se um Forum Índia-África, com periodicidade trienal, tendo a Índia criado volumosas linhas de crédito para comércio e Investimentos. No último fórum a Índia dedicou, além disso, outra linha de $10 bn para projectos de desenvolvimento.
- A telemedicina que está em crescimento na Índia, nas zonas periféricas, e nos países asiáticos vizinhos, já funciona para alguns países africanos e deve crescer muito, enquanto houver falta de médicos especialistas nesses países.
- A Índia tem favorecido a vinda de estudantes de outros países, com um certo número de bolsas por país. Como aumentar o número, em particular para estudos de Medicina e Engenharia, quando a procura interna é muito alta? Talvez para Mestrados e Doutoramentos na Índia. Seria interessante a Índia passar a ser o país de eleição para Doutoramentos, também de candidatos da UE.
- A Índia com a UE poderia criar boas universidades, exigentes, em países com dificuldades. Com cursos de Medicina, Enfermagem, Farmácia, Engenharias, Informática, etc. que fossem uma base para o seu sólido desenvolvimento.

Será a oportunidade de a UE ganhar nova credibilidade, com uma presença na reconstrução de países e na erradicação da sua pobreza.

Professor universitário na Índia

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